quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fernão Mendes Pinto evocado por Miguel Torga

Peça em bronze idealizada por António Duarte, no Pragal 
(Imagem retirada de www.almadadigital.pt)
E Fernão Mendes Pinto pode a seguir dar largas à sua penetração de Proust aventureiro. Esse estranho Mendes Pinto que o mundo leu com incredulidade e deslumbramento, mal o cravo, a canela e a pimenta aguçaram o apetite dos povos, e que desgraçadamente deixou de ler no dia em que a Índia mudou de mãos. Porque valia a pena continuar. Nos trâmites da sua acidentada Peregrinação, no enredo daquelas andanças, que seria bom completar com relatos despretensiosos e anónimos da História Trágico-Marítima, tinha a humanidade, além da mais extraordinária e penitente auto-acusação que um povo pode fazer às injustiças do seu próprio imperialismo, um dos documentos dolorosos do que custa progredir no espaço e no tempo. Livro duma vida e de muitas vidas, há nele uma autenticidade humana que tem a frescura duma reportagem de hoje e duma introspecção de sempre. A agilidade e o espanto dum espectador inteligente e sensível diante do fenómeno sempre maravilhoso e inquietante de civilizações em choque e de homens em acção.

In «Traço de União – Temas portugueses e brasileiros», de Miguel Torga, Coimbra, 1969 (2.ª edição revista) – Excerto de «Panorama da Literatura Portuguesa», conferência realizada na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, em 17 de Agosto de 1954.

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