quarta-feira, 17 de julho de 2013

AS PALAVRAS INTERDITAS, poema de Eugénio de Andrade

Imagem retirada de http://www.notapositiva.com






















Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

In «As palavras interditas / Até amanhã» (poesia), de Eugénio de Andrade (com retrato de Carlos Carneiro), Colecção «Obra de Eugénio de Andrade» (n.º 2), Fundação Eugénio de Andrade (FEA), Porto, Maio de 2002 (13.ª edição).

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