sexta-feira, 4 de agosto de 2017

«O Momento Actual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal – As oito edições de 2009 a 2017» (Relatório do estudo)


PREFÁCIO

Reforma do Estado nos cuidados de saúde primários – A não implementação dos ACeS!

Não podemos assobiar para o lado ou fazer como a avestruz. Os problemas estão à vista de todos como nos vêm demonstrar os resultados desta oitava edição do estudo «O Momento Actual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal», o qual teve um número recorde de respondentes (71,4%), indicando a capacidade participativa das USF.
Falando dos problemas, constata-se que, na sua quase totalidade, estão centrados no défice de governação institucional (cadeia hierárquica): gestão económico-financeira; manutenção das instalações, mobiliário, equipamento, higiene, limpeza, climatização; logística e aprovisionamento; sistema de informação e contratação de recursos humanos.
Em suma, ao longo destes 11 anos de reforma, continua elevada insatisfação na percepção da falta de apoio e da ausência de respostas atempadas, por parte dos agrupamentos de centros de saúde (ACeS) e, principalmente, das ARS – administrações regionais de saúde (atingindo 69,51%), aos problemas que dependem da sua intervenção.
Das duas, uma: ou a Reforma do Estado na implementação dos ACeS é para levar por diante ou é para esquecer.
Se é para prosseguir (ainda queremos acreditar que sim!), então, ao fim de um ano e meio com um novo ciclo político, é tempo de maior clareza nas decisões reformistas das ARS e dos ACeS.
Não é admissível, ao fim deste tempo, continuarmos diariamente a ouvir expressões como estas:
  • Não temos orçamento para comprar uma impressora. Mas há Orçamento!
  • Estamos a aguardar a decisão da ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde) ou das Finanças…
  • A Lei não nos permite isto, aquilo, aqueloutro.
  • Está no departamento X ou Y da ARS para posterior apreciação, por parte do conselho directivo (da ARS).
  • Dois anos para reparar infiltrações em tectos de gabinetes, etc., etc.
Tudo isto a arrastar-se nas mais variadas situações, tais como problemas ligados aos sistemas de informação sem definição dos termos de referência, com uma interoperabilidade muito baixa e quebras constantes (78,5% das USF ficou mais do que dez vezes sem sistema!), aprovisionamento de material sem critérios definidos nem monitorização pública; e, sobretudo, a nível dos recursos humanos (RH), em que continua a faltar sentido estratégico da política de recrutamento de RH (no que diz respeito a coesão e a resultados) e na gestão previsional efectiva (na prevenção das crises), apostando no reforço dos recursos humanos qualificados nos CSP, alocados a uma carteira de serviços tipificada nacionalmente.
As ARS não se reformam por si próprias. Logo, não estão em condições de conduzir um processo tão complexo como a constituição dos ACeS, nem aquilo que eles devem corporizar enquanto novos paradigmas de governação descentralizada, responsável e participada.
A Reforma dos CSP propõe um modelo alternativo e mesmo de combate a este modelo vertical e de sentido único, em que a aposta é na mudança de comportamento dos dirigentes, passando a serem capazes de desempenhar as suas funções de servidores e de supervisores das unidades funcionais dos ACeS.
Em resumo, há uma contradição que urge ultrapassar entre o modelo burocrático das estruturas formais (ACSS, SPMS, ARS e ACeS) e a moderna administração pública (USF), com uma governação da Saúde centrada na responsabilização pelos resultados, em que predomina a discriminação positiva, a transparência e a prestação de contas.
Fica, aqui, expresso um agradecimento público muito especial aos autores, pela sua elevada competência e visão estratégica como investigadores, e pela persistência em manter esta avaliação ao longo dos anos, a qual muito tem contribuído para orientar o rumo a prosseguir. Um exemplo do que precisamos fazer no âmbito da nova cultura organizacional a implementar no SNS.
Por último, salientar que a USF-AN e todos os seus colaboradores continuam a alimentar o modelo colaborativo, apresentando propostas objectivas, como aconteceu na publicação «7x7 Medidas – Novo Ciclo para os Cuidados de Saúde Primários» (Agosto de 2015) e agora, com este relatório que não se limita a actualizar o diagnóstico da situação, apresentando a opinião dos coordenadores das USF e uma excelente análise SWOT, além de apresentar propostas de melhoria, resumidas em dez medidas que gostaríamos de ver implementadas, para se acelerar o novo impulso tão desejado para uma melhor saúde em Portugal.
Contem connosco!

Porto, Julho de 2017
João Rodrigues
Presidente da USF-AN

Bernardo Vilas Boas
Ex-presidente da USF-AN
Membro do Conselho Consultivo 
…………………………………….

OS AUTORES
André Rosa Biscaia Médico de Medicina Geral e Familiar (MGF) na Unidade de Saúde Familiar (USF) Marginal do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) de Cascais, da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo (LVT). É doutorado em Saúde Internacional – Políticas de Saúde e Desenvolvimento.
António Pereira Médico de MGF na USF Prelada do ACeS Porto Ocidental, da ARS do Norte. É doutorando em Investigação Clínica e em Serviços de Saúde, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Rui Cardeira Enfermeiro na USF Anta, ACeS Espinho/Gaia, da ARS do Norte.
Amanda Cavada Fehn Enfermeira e mestre em Ciências, pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) – Fiocruz, no Brasil. É, também, doutoranda em Saúde Colectiva, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

…………………………………….

FICHA TÉCNICA
Livro: O Momento Actual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal – As oito edições de 2009 a 2017 (Relatório do estudo)
Autores: André Rosa Biscaia, António Pereira, Rui Cardeira e Amanda Cavada Fehn (USF-AN – Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar)
Prefácio: João Rodrigues (presidente da USF-AN) e Bernardo Vilas Boas (ex-presidente da USF-AN e membro do Conselho Consultivo)
Ilustração da capa: USF-AN (Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar)
Editora: Mar da Palavra - Edições, L.da
PVP: 26,50 €
N.º de páginas: 224
Formato: 17,0 x 24,0 cm
ISBN: 972-8910-76-1 (EAN: 978-972-8910-76-1)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Nova apresentação do livro «Crónicas do Envelhecer» a realizar no dia 8 de Junho de 2017, pelas 15h00, na Universidade Sénior de Benfica


A editora Mar da Palavra e o autor Joaquim Manuel Pinto Serra convidam V. Ex.ª a assistir à sessão de apresentação do livro «Crónicas do Envelhecer» a realizar no dia 8 de Junho de 2017 (quinta-feira), pelas 15h00, na Universidade Sénior de Benfica (UNISBEN, à Rua Dr. José Baptista de Sousa – perto do Centro Comercial Fonte Nova).
No âmbito desta sessão literária e de carácter cívico, haverá um apontamento musical, com a colaboração da Escola de Fado, contribuindo para o diálogo entre o médico-escritor e os leitores-ouvintes, na redescoberta das emoções e dos sentidos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

22 de Maio de 2017: Sessão pública de apresentação, em Benfica, do livro «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra


A editora Mar da Palavra e o autor Joaquim Manuel Pinto Serra convidam V. Ex.ª a estar presente no lançamento do livro «Crónicas do Envelhecer», em sessão pública a realizar no dia 22 de Maio de 2017 (segunda-feira), pelas 16h00, no Salão Paroquial da Igreja de São Domingos de Benfica (Rua Raul Carapinha, n.º 15).


quarta-feira, 5 de abril de 2017

NOVIDADE EDITORIAL: «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra



EXCERTO DE APRESENTAÇÃO

O jogo de xadrez é um retrato fiel das nossas vidas. Sobretudo, das vidas das pessoas de mais idade, aquelas já catalogadas de seniores.
Em escalada para a exclusão social, elas apercebem-se dos avanços e recuos das peças mais influentes. Conforme o contexto social em que se inserem, o estrato económico a que pertencem ou as políticas mais ou menos hostis delineadas pelos governantes ocasionais em qualquer momento histórico.
Sós, isolados por falta de apoio ou por inexistência de condições gregárias de sobrevivência, dizem em surdina o que pensam ou fecham-se nas suas profundas interiorizações, preservando a vulnerabilidade sentida em locais inventados para viver os últimos anos das suas vidas.
Em estratagemas mascarados de subtilezas hábeis e cerimoniosas, as peças deslocam-se tão lentamente que qualquer alteração mais precipitada é sempre fruto de uma súbita disfunção emocional provocada por acontecimentos desagradáveis. Acontecimentos que fugiram à rotina necessária para tudo correr bem, sem rupturas nos sistemas previamente estabelecidos.       
.......................................

O AUTOR:
Joaquim Manuel Pinto Serra Médico psiquiatra, é algarvio (Loulé) e reside em Lisboa.
Durante cerca de sessenta anos viveu em Coimbra, onde exerceu a sua actividade profissional. Aposentado da carreira hospitalar (chefe de serviço), desempenha, actualmente, funções clínicas no Hospital Privado de Loulé.
Como escritor, vê agora publicado o seu décimo sexto livro, uma colectânea de crónicas dedicadas
à problemática do envelhecimento num contexto de inserção dos mais velhos nas actuais comunidades. E onde se sentem marginalizados por deficiente interpretação do seu papel numa convivência intergeracional que se esperaria inteligente e solidária.
Motivado pelos estudos nos domínios da Gerontologia e da Gerontopsiquiatria, lecciona a disciplina «A Arte de Envelhecer» em várias Academias de Seniores, na cidade de Lisboa.
Essas experiências sensibilizaram-no para a publicação desta obra, dedicada aos mais idosos e à sua difícil integração numa sociedade incomodada com as longevidades concedidas, nos tempos actuais, pela Ciência.
.......................................

FICHA TÉCNICA
Livro: Crónicas do Envelhecer
Autor: Joaquim Manuel Pinto Serra
Ilustração da capa: Reprodução de pintura de Almeida e Silva.
Fotografia do autor na contracapa: Maria Apparecida Vidal Finck
Editora: Mar da Palavra - Edições, L.da
PVP: 16,96 €
N.º de páginas: 176
Formato: 14,5 x 21,0 cm
ISBN: 972-8910-75-4 (EAN: 978-972-8910-75-4)

.......................................

Registo de notícias e outras referências:
https://www.facebook.com/149325878444472/photos/a.401126863264371.88598.149325878444472/1396298607080520/?type=3&theater
http://www.bibliofeira.com/livro/684893365/cronicas-do-envelhecer/
https://www.wook.pt/livro/cronicas-do-envelhecer-joaquim-manuel-pinto-serra/19288447
https://www.bertrand.pt/ficha/cronicas-do-envelhecer?id=19288447
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1471365932957831&set=a.614844408609992.1073741825.100002533142655&type=3&theater

sábado, 25 de março de 2017

«Mar», poema de Vinicius de Moraes

Foto encontrada em www.midiorama.com
















Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

terça-feira, 21 de março de 2017

Excerto do capítulo sexto – «Terra Firme» – da novela «Casa da Malta», de Fernando Namora

 Foto encontrada em https://sol.sapo.pt

A princípio, o mar, a praia, o casario de madeira, o falar das gentes, tinham sido para ela um encantamento. Mas um ano depois já estava ao balcão como forçada. Era uma pessoa fora da sua terra. Doía-lhe a saudade das colinas, das vinhas que o sol fascinava, da voz do vento coada pelas ramagens, dos corvos do alto, das searas, da terra firme. Mas não lhe saía um queixume do peito. Ia à vila buscar os artigos, regateava um centavo, em pouco convencera o homem a alugar cas junto às dunas, e ainda ali ia persegui-la a voz do mar, ressoante do vento e dos búzios. De princípio, os pescadores, desconfiados da gente da serra, não entravam: preferiam outra venda no fundo da lagoa, que nascia de um braço transviado do rio, o dono tocava sanfona, fazia serenatas, até era chamado pela gente da cidade. Carminda, porém, queria vencer.
O homem troçava dos seus esforços, mordiscava-a:
– Anda, vai chamá-los…!
Mas Carminda queria regressar vencedora à sua terra e oferecer a capela a S. Brás. Levou um lindo galo à mulher do Clemente, fiscal do mar, um avental bordado à Mari Dolores, filha do arrais. E então eles foram-se encostando ao umbral da sua venda, entre o entrar e o não entrar, à espera da maré. E em breve metade do povo era seu. Vinha o enchido da serra e os homens gostavam do paladar. Cercou umas braçadas de areia da banda do norte da cas com tábuas espetadas ao alto; de noite, pegava num canastro e andava quilómetros para buscar terra, terra negra, terra onde pudesse crescer uma coisa verde. Plantou uma horta e uma dália. Uma dália vermelha, um ser vivo nascido da terra, que a aragem do mar esmorecia. Mesmo assim, era um sinal da sua ideia. Mais tarde, forrou a sal de jantar e o quarto a crespo e cal. Contava o dinheiro dia a dia, com as portas já cerradas, embora João António se revoltasse em silêncio contra aquela conquista das suas tarefas e direitos. Enquanto ele ressonava, indiferente, Carminda abria os olhos para a negrura das tábuas do tecto e entregava-se aos braços do sonho. Haviam de partir dali já com o dinheiro para a capela e par a compra da quinta da Mata. O marido nunca adivinhara esse ódio ao mar, aos pescadores, à lagoa adormecida. Julgava-a contente com aquele bem-estar. Por seu lado, criara amizades, gostava de uma caldeirada na praia com bom vinho maduro, dos camisolões de Inverno que espantariam os camaradas lá da aldeia. A ideia da terra ia-se esbatendo. Aqui, para ele, não havia enxada, nem penúrias, e o dinheiro entrava. Com a gravidez da mulher, mais se pegou ao mar: era ali a sua vida, a sua gente, gostava de contemplar as vagas do cimo das falésias, dava-lhe um saboroso quebranto físico. Na saída dos barcos para a pesca, quando as proas se empinavam às ondas, e o mulherio esbracejava, aos gritos, as viúvas agoirentas rezando nas dunas, então tremia. Mas até isso era grandioso.
E Carminda, agora, com aquela ideia de ter a criança na aldeia! Que fosse. «O meu filho.» Como se fosse uma coisa já viva, como se essa coisa já viva não pertencesse ao mar, ao povo que lhe tinha dado o pão, como se nem a ele, pai, pertencesse também. «O meu filho.» E falava com um rancor de posse, de ódio, aloucada. Que fosse, então. E ele, a bem dizer, havia de gostar desses meses de liberdade, dessas noites que passaria na cidade, como solteiro…

In «Casa da Malta» (novela), de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, s/d (15ª edição).