sexta-feira, 12 de maio de 2017

22 de Maio de 2017: Sessão pública de apresentação, em Benfica, do livro «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra


A editora Mar da Palavra e o autor Joaquim Manuel Pinto Serra convidam V. Ex.ª a estar presente no lançamento do livro «Crónicas do Envelhecer», em sessão pública a realizar no dia 22 de Maio de 2017 (segunda-feira), pelas 16h00, no Salão Paroquial da Igreja de São Domingos de Benfica (Rua Raul Carapinha, n.º 15).
No âmbito da apresentação da obra, haverá um apontamento musical propiciador do diálogo entre o médico-escritor e os leitores-ouvintes, na redescoberta das emoções e dos sentidos.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

NOVIDADE EDITORIAL: «Crónicas do Envelhecer», de Joaquim Manuel Pinto Serra



EXCERTO DE APRESENTAÇÃO

O jogo de xadrez é um retrato fiel das nossas vidas. Sobretudo, das vidas das pessoas de mais idade, aquelas já catalogadas de seniores.
Em escalada para a exclusão social, elas apercebem-se dos avanços e recuos das peças mais influentes. Conforme o contexto social em que se inserem, o estrato económico a que pertencem ou as políticas mais ou menos hostis delineadas pelos governantes ocasionais em qualquer momento histórico.
Sós, isolados por falta de apoio ou por inexistência de condições gregárias de sobrevivência, dizem em surdina o que pensam ou fecham-se nas suas profundas interiorizações, preservando a vulnerabilidade sentida em locais inventados para viver os últimos anos das suas vidas.
Em estratagemas mascarados de subtilezas hábeis e cerimoniosas, as peças deslocam-se tão lentamente que qualquer alteração mais precipitada é sempre fruto de uma súbita disfunção emocional provocada por acontecimentos desagradáveis. Acontecimentos que fugiram à rotina necessária para tudo correr bem, sem rupturas nos sistemas previamente estabelecidos.       
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O AUTOR:
Joaquim Manuel Pinto Serra Médico psiquiatra, é algarvio (Loulé) e reside em Lisboa.
Durante cerca de sessenta anos viveu em Coimbra, onde exerceu a sua actividade profissional. Aposentado da carreira hospitalar (chefe de serviço), desempenha, actualmente, funções clínicas no Hospital Privado de Loulé.
Como escritor, vê agora publicado o seu décimo sexto livro, uma colectânea de crónicas dedicadas
à problemática do envelhecimento num contexto de inserção dos mais velhos nas actuais comunidades. E onde se sentem marginalizados por deficiente interpretação do seu papel numa convivência intergeracional que se esperaria inteligente e solidária.
Motivado pelos estudos nos domínios da Gerontologia e da Gerontopsiquiatria, lecciona a disciplina «A Arte de Envelhecer» em várias Academias de Seniores, na cidade de Lisboa.
Essas experiências sensibilizaram-no para a publicação desta obra, dedicada aos mais idosos e à sua difícil integração numa sociedade incomodada com as longevidades concedidas, nos tempos actuais, pela Ciência.
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FICHA TÉCNICA
Livro: Crónicas do Envelhecer
Autor: Joaquim Manuel Pinto Serra
Ilustração da capa: Reprodução de pintura de Almeida e Silva.
Fotografia do autor na contracapa: Maria Apparecida Vidal Finck
Editora: Mar da Palavra - Edições, L.da
PVP: 16,96 €
N.º de páginas: 176
Formato: 14,5 x 21,0 cm
ISBN: 972-8910-75-4 (EAN: 978-972-8910-75-4)

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Registo de notícias e outras referências:
https://www.facebook.com/149325878444472/photos/a.401126863264371.88598.149325878444472/1396298607080520/?type=3&theater
http://www.bibliofeira.com/livro/684893365/cronicas-do-envelhecer/
https://www.wook.pt/livro/cronicas-do-envelhecer-joaquim-manuel-pinto-serra/19288447
https://www.bertrand.pt/ficha/cronicas-do-envelhecer?id=19288447

sábado, 25 de março de 2017

«Mar», poema de Vinicius de Moraes

Foto encontrada em www.midiorama.com
















Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

terça-feira, 21 de março de 2017

Excerto do capítulo sexto – «Terra Firme» – da novela «Casa da Malta», de Fernando Namora

 Foto encontrada em https://sol.sapo.pt

A princípio, o mar, a praia, o casario de madeira, o falar das gentes, tinham sido para ela um encantamento. Mas um ano depois já estava ao balcão como forçada. Era uma pessoa fora da sua terra. Doía-lhe a saudade das colinas, das vinhas que o sol fascinava, da voz do vento coada pelas ramagens, dos corvos do alto, das searas, da terra firme. Mas não lhe saía um queixume do peito. Ia à vila buscar os artigos, regateava um centavo, em pouco convencera o homem a alugar cas junto às dunas, e ainda ali ia persegui-la a voz do mar, ressoante do vento e dos búzios. De princípio, os pescadores, desconfiados da gente da serra, não entravam: preferiam outra venda no fundo da lagoa, que nascia de um braço transviado do rio, o dono tocava sanfona, fazia serenatas, até era chamado pela gente da cidade. Carminda, porém, queria vencer.
O homem troçava dos seus esforços, mordiscava-a:
– Anda, vai chamá-los…!
Mas Carminda queria regressar vencedora à sua terra e oferecer a capela a S. Brás. Levou um lindo galo à mulher do Clemente, fiscal do mar, um avental bordado à Mari Dolores, filha do arrais. E então eles foram-se encostando ao umbral da sua venda, entre o entrar e o não entrar, à espera da maré. E em breve metade do povo era seu. Vinha o enchido da serra e os homens gostavam do paladar. Cercou umas braçadas de areia da banda do norte da cas com tábuas espetadas ao alto; de noite, pegava num canastro e andava quilómetros para buscar terra, terra negra, terra onde pudesse crescer uma coisa verde. Plantou uma horta e uma dália. Uma dália vermelha, um ser vivo nascido da terra, que a aragem do mar esmorecia. Mesmo assim, era um sinal da sua ideia. Mais tarde, forrou a sal de jantar e o quarto a crespo e cal. Contava o dinheiro dia a dia, com as portas já cerradas, embora João António se revoltasse em silêncio contra aquela conquista das suas tarefas e direitos. Enquanto ele ressonava, indiferente, Carminda abria os olhos para a negrura das tábuas do tecto e entregava-se aos braços do sonho. Haviam de partir dali já com o dinheiro para a capela e par a compra da quinta da Mata. O marido nunca adivinhara esse ódio ao mar, aos pescadores, à lagoa adormecida. Julgava-a contente com aquele bem-estar. Por seu lado, criara amizades, gostava de uma caldeirada na praia com bom vinho maduro, dos camisolões de Inverno que espantariam os camaradas lá da aldeia. A ideia da terra ia-se esbatendo. Aqui, para ele, não havia enxada, nem penúrias, e o dinheiro entrava. Com a gravidez da mulher, mais se pegou ao mar: era ali a sua vida, a sua gente, gostava de contemplar as vagas do cimo das falésias, dava-lhe um saboroso quebranto físico. Na saída dos barcos para a pesca, quando as proas se empinavam às ondas, e o mulherio esbracejava, aos gritos, as viúvas agoirentas rezando nas dunas, então tremia. Mas até isso era grandioso.
E Carminda, agora, com aquela ideia de ter a criança na aldeia! Que fosse. «O meu filho.» Como se fosse uma coisa já viva, como se essa coisa já viva não pertencesse ao mar, ao povo que lhe tinha dado o pão, como se nem a ele, pai, pertencesse também. «O meu filho.» E falava com um rancor de posse, de ódio, aloucada. Que fosse, então. E ele, a bem dizer, havia de gostar desses meses de liberdade, dessas noites que passaria na cidade, como solteiro…

In «Casa da Malta» (novela), de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, s/d (15ª edição).

quarta-feira, 8 de março de 2017

[– Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?], excerto do livro «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz

Imagem encontrada em https://www.esfmp.pt

Os dias sucedem-se iguais, uns atrás dos outros, e a rotina infiltra-se na carne como música nas orelhas. O Verão deixa entrar o Outono na sua casa; e este, o Inverno; e a diplomacia das estações sucede-se.
Rosa corre pela chuva e chega à casa de Santos & Santos. Com a roupa molhada, tira, com alguma dificuldade, as chaves de uma mala demasiado cheia e abre a porta da rua. Fecha o guarda-chuva, sacode-o e encosta-o à parede, e depois tira o lenço que traz na cabeça e sacode o cabelo como fazem os cães molhados. Passa os sapatos pelo tapete e dirige-se à cozinha, mas pára porque ouve um grito. Vira-se, avermelhada, pois aquela voz é terrível. Dona Clotilde é responsável por todas as empregadas da casa. Cita filósofos alemães enquanto aspira. Gosta de Kant, apesar de dizer: aquilo não era um filósofo, era um relógio. Uma pessoa pode saber que horas são só por pensar como ele. Rosa ouve-a com paciência, engole os seus gritos de desespero pelo corredor que, acabado de limpar, está novamente sujo, com lama. No meio dos gritos ouve citações de Heidegger e até já sabe uma ou outra frase de Ser e Tempo e outras higienes. Dona Clotilde enviuvou ainda relativamente nova, não tinha mais de quarenta anos, mas deixou-se entristecer eternamente sem outro consolo que não a limpeza do mundo. Tem propriedades em Lisboa e não precisa de trabalhar, mas vê a limpeza como uma missão: quer limpar o mundo. E não há nada melhor do que o chão, pois é aí que o mundo começa. No fundo, dona Clotilde sente-se um símbolo, alguém que limpa a parte mais baixa de todas, aquilo que está ainda mais baixa do que os nossos pés, limpa aquilo que pisamos.
A lama é uma ofensa tremenda à civilização, e o carácter de dona Clotilde jamais permitiria a barbárie espalhada pelos patamares de mármore e corrimãos e flores de plástico. São milhares de anos de sociedades sedentárias, para depois andarmos a pisar toda a nossa História com sapatos sujos. Rosa suspira e recua para a entrada para voltar a limpar os pés, mas isso ainda irrita mais dona Clotilde. Está a fazer pior ao chão, na perspectiva de poupar o resto do corredor. O raciocínio pode ser correcto, mas ver aquele espaço da entrada a encher-se de sujidade é algo que dona Clotilde é incapaz de tolerar. A sua cara ruboriza-se e chega a levantar a mão, um gesto de que prontamente se arrepende. Por isso disfarça e transforma o seu movimento numa palmadinha nas costas de Rosa.
– Muito bem – diz ela. – Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?

In «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz, Penguin Random House Grupo Editorial Unipessoal, Lda. (chancela da Alfaguara), Lisboa, Novembro de 2015 (1.ª edição).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Excerto de «A história de Julieta, a Santa da Baviera», de Gonçalo M. Tavares

Foto encontrada em http://veja.abril.com.br

«Todas as coisas se trocam pelo fogo e o fogo troca-se por todas; como o ouro se troca pelas mercadorias e as mercadorias pelo ouro», lembrava-se ele de ter lido nos escritos do sábio. Confundida, assim, a morte com a vida, ele matava como o agricultor semeia. Roubava ouro, deixava-lhes o fogo. Como todas as más cópias, destruía com instrumentos que o sábio utilizara para construir.
Romeu da Baviera, o homem que se procurava a si mesmo, ambicioso; pretendente a sábio; seguidor de Heraclito, tornou-se conhecido como o duque do Fogo; o homem que queima até o que já não consegue fugir. Conquistou tantas cidades como ódios. Matou tantos homens quantos os que deixou com vontade de o matar.
Um dia, porém, o mundo mudou: o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele. Romeu da Baviera não crescera nessa sabedoria capaz de sair do presente: havia gasto já todas as alegrias. Agora era o momento de recordar as palavras do Evangelho de São Mateus (24.7): «Haverá fome e terramotos em vários lugares.
Mas tudo isto é apenas o começo das dores.» Para Romeu começara, então, o tempo das dores.
Atacado pelo exército do imperador Conrado III, rapidamente perdeu terreno e homens.
O resto, em parte, é conhecido. Conta-o Montaigne num dos seus ensaios. Movido pelo ódio, embora inda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.
Que elas saíssem da cidade a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo (essa a sua vingança): incluindo os homens; incluindo Romeu.
A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.
Montaigne esqueceu-se (não terá visto): quando Romeu, o cruel duque da Baviera, se viu deixado para trás, abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que de tudo se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte. De imediato, no entanto, foi surpreendido pela terra, pelas mulheres. Uma mão feminina com rugas: era Julieta. Como nele, trinta anos nela haviam passado. Era agora velha, curvada, fraca. No entanto, carregou-o às costas. Corajosa. Ainda Apaixonada.
Montaigne fala de um perdão por parte do imperador, impressionado com a exibição de força e coração das mulheres da Baviera.
Sabemos, porém, que não foi bem assim. Deixou fugir todos os homens que as suas mulheres carregaram aos ombros, é verdade, excepto Romeu.
Julieta também ficou.
O imperador não era falador, era guerreiro, mas disse:
– Só se pode odiar a mulher que ama o inimigo.
Juntou, assim, os dois, no centro da cidade, amarrados por cordas um ao outro.
Ele próprio, o imperador Conrado III, acendeu o fogo. Dizem que com a mão esquerda, a mão que odeia.
O fim da história é evidente; não era já tempo dos milagres: Romeu e Julieta da Baviera morreram.

In «Histórias Falsas» (breves narrativas; desvios ficcionais na história da filosofia antiga), de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, SA (uma editora do grupo Leya), Alfragide, 2014 (7.ª edição).

«Dorme», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em https://www.dicio.com.br

podes dormir
dormir o dia todo
todos os dias
pelos dias

podes ir dormir
dormir
ignorando emoções
as lágrimas

continua a dormir
a dormir
para acordares
somente
quando sentires
a festa da morte
na tua face
                    até lá

segue a dormir
no desconhecido
respirando
tranquilamente

vá, dorme

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 2», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Foto encontrada em http://www.conexaolusofona.org

cordas pregos pregos
e cordas barulhos mosquitos
varejeiras maus cheiros
sacos plástico ao vento

pregos cordas e cordas
borrachas farrapos antenas
latas de tinta barrotes
de madeira sujos cimentos

pregos pregos mais cordas
habitações sociais pocilgas
escaravelhos latas de salsichas
carreiros cardos e pregos

cordas cordas fios de nylon
folhas de jornal preservativo
isqueiro partido caracóis
uma canção abandonada

pregos cordas e cardos
o sol queimando memórias
câmaras de ar esqueletos

                      esqueletos
a obra-prima da morte

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 1», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em http://reencontros-dinamc.blogspot.pt

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
cacos de vidro papelão
fios de corda dois passos

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
saco de plástico cavilha
madeiras e mais três

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
sola de sapato alumínio
lata de ferrugem passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
ossos de ave caracóis
colher passos à deriva

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
resto de janela varejeiras
brilhos sob um passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
folha de jornal oleado
encalhado na miséria

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
frente ao horizonte
mortos de pé sobre pés

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).