domingo, 7 de julho de 2013

COM LETRAS DE SANGUE, poema de Manuel Alegre

Foto retirada de http://oeiras-a-ler.blogspot.pt


















De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
um poeta calou-se apagou-se a canção.

De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.

Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
escreveu no chão: porquê?
E eram as letras do seu próprio sangue.

In «Nambuangongo, meu amor – Os poemas da guerra», de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008 (2.ª edição).

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