terça-feira, 7 de janeiro de 2014

[Quando chegava a estação dos mergulhos], excerto de «O Tumulto das Ondas», de Yukio Mishima

Yukio Mishima – Foto retirada de http://sydneytrads.com
Quando chegava a estação dos mergulhos, as raparigas encaravam-na com a mesma angústia que sentem as raparigas da cidade ao chegar a altura dos exames de fim de ano. Durante os primeiros anos de escola costumavam fazer concurso par verem quem conseguia apanhar o maior número de conchas no fundo da água – e essa brincadeira iniciava-as na arte de mergulhar e instigava o espírito de competição. Mas quando o divertimento dava lugar à actividade séria e severa, todas as raparigas sem excepção começavam a ser tomadas pelo medo, e a chegada da Primavera apenas significava que se aproximava o detestado Verão.
Havia o frio, a sufocação, a indizível angústia de sentir a água penetrar por sob a máscara, o pânico e o medo de desmaiar no momento em que os dedos estavam apenas a alguns centímetros de um haliotis e depois toda a espécie de acidentes e as feridas na ponta dos dedos dos pés, quando, para subir de novo à superfície batiam, com eles no fundo do mar atapetado de pedaços de conchas pontiagudos – e também a fadiga que se apoderava de todo o corpo, em resultado de mergulhos forçados par lá de toda a razão... Todas estas coisas se iam gravando cada vez mais profundamente na memória e os receios multiplicavam-se com a repetição. Frequentemente, as raparigas eram acordadas por pesadelos súbitos no mais profundo do sono, pesadelos que não deixavam qualquer lugar par os sonhos bons. Acontecia muitas vezes que, em plena noite, no seu leito pacífico banhado de escuridão, tentavam olhar o mundo através das palmas das mãos crispadas sobre a face onde abundava o suor.
O mesmo não se passava com as mergulhadoras mais idosas, com as que já tinham marido. Ao saírem da água depois de um mergulho, cantavam, riam, tagarelavam em voz alta e forte. Dir-se-ia que, para elas, não havia diferença entre trabalho e divertimento. As raparigas olhavam-nas cheias de inveja e ficavam a cismar que nunca conseguiriam fazer algo de parecido; contudo, com os anos, descobriam, surpresas, que, sem darem por isso, haviam já chegado a um ponto em que podiam integrar o grupo de alegres mergulhadoras consumadas.

In «O Tumulto das Ondas», de Yukio Mishima (tradução, a partir do francês, de Manuel Resende; revisão de texto: Anabela Prates Carvalho e Michelle Nobre Dias), Colecção «Ficções» (n.º 176), Relógio D’Água Editores, Lisboa, Fevereiro de 2012 (1.ª edição).

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