terça-feira, 14 de janeiro de 2014

[mais pareciam simples chávenas de chá], excerto do livro «Chá e Amor», de Yasunari Kawabata

Imagem retirada de www.blogclubedeleitores.com     
Fumiko, num tabuleiro, trouxe duas taças.
Eram cilíndricas – e uma era uma Raku vermelha, e a outra uma Raku preta.
Colocou a taça preta diante de Kikuji – e Kikuji logo se apercebeu de que se tratava de um chá vulgar.
Pegando na taça, tentou saber de que mãos de oleiro ela saíra, observando-a sob todos os ângulos. Sem cerimónia, perguntou:
– Que peça é esta...?
– Penso que uma Ryonyu [Raku, porcelana de Kyoto, com origem no séc. XVI. Ryonyu (1756-1834) foi o nono mestre dos fornos de cal de Raku].
– E a vermelha...?
– Também uma Ryonyu.
– Parecem ser um par. – E Kikuji olhou para a taça vermelha, que Fumiko, sem lhe tocar, mantinha sobre os joelhos.
Embora fossem peças rituais, a verdade é que, fora do contexto, mais pareciam simples chávenas de chá – e logo uma imagem desagradável, tal um relâmpago, se implantou na mente de Kikuji.
Morrera o pai de Fumiko – e o pai de Kikuji continuara a viver. Ora não teria acontecido que este par de Raku... Isso, isso: aquelas duas peças não teriam sido utilizadas como simples chávenas de chá quando o pai de Kikuji vinha visitar a mãe de Fumiko? Não teriam sido usadas como chávenas de chá de «um casal», a preta nas mãos do pai de Kikuji, a vermelha nas mãos da senhora Ota...?
Se eram na verdade Ryonyu, qualquer pessoa teria de estar atenta, não se descuidando enquanto as tivesse nas mãos. Mas teriam essas duas taças, enfim, participado em excursões, levadas pelo «casal»...?
Fumiko, certamente a par destas coisas do passado, talvez se estivesse a rir dele. Mas Kikuji não viu qualquer espécie de malícia, nem tão-pouco uma atitude calculista, no facto de ela haver trazido até ele aquelas duas peças de chá... Compreendeu a sentimentalidade da jovem, sem dúvida com um certo ar juvenil, mas uma sentimentalidade que, afinal, também o afectava.
Ele e Fumiko, visitados pela morte da mãe dela, sentiam-se incapazes de se desfazer daquela ridícula (ou melodramática?) sentimentalidade. Aliás, o par de taças Raku acabara por aprofundar o desgosto que os atingira a ambos.
Agora, aquela terna sentimentalidade... Kikuji encolheu os ombros. Oh, sim! Fumiko estava a par de tudo: as relações do pai dele com a mãe dela; as relações desta com ele próprio; a morte, finalmente, da senhora Ota. Depois – ambos tinham partilhado a atitude de esconder aquele tão dolorido suicídio...
Fumiko (via-se nos seus olhos um pouquinho avermelhados) tinha chorado enquanto se dera à delicada tarefa de fazer o chá. E logo Kikuji:
– Estou feliz por ter vindo hoje aqui. Muito me tocou o que há pouco disse... Lembra-se? Que entre os vivos e os mortos não pode haver perdão. Ora bem... Devo pensar ou não que fui perdoado pela sua mãe?
Fumiko acenou que sim:
– Se não fosse assim – disse –, a mãe também não podia ser perdoada. Ela é que não se perdoa a si própria.
– Mas, de qualquer maneira, não deixa de ser terrível que eu esteja aqui consigo...
– Porquê...?
E ela levantou os olhos para ele:
– Acha que foi mau para ela ter morrido? Pois saiba que me mantenho um tanto fria... Tenha-se ela equivocado ou não, ou mesmo que ninguém a tenha compreendido, penso que a morte não deveria ter sido a sua resposta à situação em que se viu envolvida. A morte rompe com todo o entendimento, corta toda a compreensão. Penso que nunca ninguém deveria esquecer isso.
Kikuji mantinha-se silencioso. Pensava, lá muito no seu íntimo, se também Fumiko encaminhava os seus passos para uma confrontação final com o segredo da morte. Estranho, na verdade, que ela tivesse dito que a morte punha termo a toda e qualquer compreensão...

In
«Chá e Amor», romance de Yasunari Kawabata (prefácio e tradução de Pedro Alvim, a partir da versão inglesa de Edward G. Seidenstiker; revisão de Alice Araújo), colecção Escola de Letras, Vega Editora, Lisboa, 2007 (4.ª edição).

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