sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

«Não», poema de João José Cochofel

«Violino», quadro de Amadeu de Sousa Cardoso, óleo sobre tela
Não,
não temos alma,
amigos poetas de longe,
não temos alma para cantar a certeza
até ao fundo.

A que revela ao mundo,
mesmo nas horas instáveis,
os olhos de Elsa
e os corpos memoráveis.
E traz com ela
o cio que acorda a terra
e tanto dá as árvores ao vento
e as praias ao mar,
como os seios às mãos
e os sexos à gula
de um corpo, lua tangível
e desnuda
em vossos versos reflectida.

Ânsia que vos não erra,
poetas de longe,
límpidos olhos
onde dorme a exacta flor prometida.

Num silêncio trespassado de lágrimas
mais duras que as choradas,
outro era o quinhão que nos cabia:
a cantar esta secura
de água sem nascente.
Um brejo de agruras
onde calam todas as fontes
dos dedos brotadas.

Enquanto num frémito de violinos
molhados de espanto de furar a treva
despertam flutuações carnais abrindo,
tão naturais
como te queremos, Terra!

In «Obra Poética» [«Os Dias Íntimos», 1944-1958], de João José Cochofel, colecção «Obras Completas», Editorial Caminho, Lisboa, Dezembro de 1988 (1.ª edição)

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