quarta-feira, 3 de agosto de 2016

[PODE ESCREVER-SE UM POEMA como quem escreve / uma carta de Bruges], excerto de poema de Manuel Alegre

Imagem encontrada em http://medievalimago.org/


















PODE ESCREVER-SE UM POEMA como quem escreve
uma carta de Bruges. Sentado no Grote Markt
olhando a alta torre o Infante relata

a D. Duarte a história da cidade.
Fala talvez do primeiro navio que partiu de Génova
até ao porto de Bruges e da importância das trocas

ou da bolsa de valores aberta em 1309
quando a Europa começa a ser Europa
em Bruges onde atracam galés venezianas.

Passeia talvez na margem do canal de Grownerei
ou do Lago Minnewater tocado pelo esplendor
das casas das pontes da arquitectura

e então diz ao irmão que só pela cultura
poderemos elevar-nos à altura dessa harmonia
que reina em Bruges onde o poema pode

escrever-se lamentando a má administração
do reino o atraso a fealdade a porcaria
virados para dentro de costas para o mundo

em vez de se buscar outro sentido
outro reino no reino: entre Lisboa e Bruges
entre Lisboa e o grande mar desconhecido.

In «Sete partidas» (poema), de Manuel Alegre, Colecção Mil Horas de Leitura (n.º 4), Edições Nelson de Matos,
Lisboa, 2008 (2.ª edição).

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