terça-feira, 30 de agosto de 2016

«Esplanada», poema de Manuel António Pina

Imagem encontrada em http://www.oportohomeapartments.com/

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

In «Poesia, Saudade da Prosa – Uma antologia pessoal», de Manuel António Pina, Colecção «grãos de pólen» (n.º 12), Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2011 (1.ª edição).

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