quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Poema «XIII» de SONÂMBULO (1941-1942-1943), de José Gomes Ferreira

Imagem encontrada em http://www.robsonpiresxerife.com/
Vi-o cair sozinho
ao pé do tapume
e não fui erguê-lo.

Continuei o meu caminho
com raivas de lume
nos olhos de gelo…

Ah! D. Quixote, D. Quixote
que trago no coração,
por que não me obrigaste, a chicote,
a levantá-lo do chão?

Por que não me obrigaste, a pontapé,
a levá-lo nos meus braços
ao Hospital de S. José
– por pedras de rasgar passos?

Por que tão assim te contentas
com o dever clandestino
destas lágrimas sangrentas
que já nem choro, imagino?

D. Quixote, D. Quixote,
D. Quixote sem cavalo,
sem espada nem arnês,
fechado no meu coração:
por que não me obrigaste a levá-lo
em vez, em vez
de estares para aí a chorá-lo
com lágrimas de sonho vão?

D. Quixote português,
covarde de solidão.

In «Poeta militante – Viagem do Século Vinte em mim» (1.º volume), obra poética completa de José Gomes Ferreira, colecção «Círculo de Poesia», Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977 (1.ª edição).

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