quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Poema «V» de AREIA (1938), de José Gomes Ferreira

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Eh! amigo lagarto
que todos os dias nesta vereda
espreitas do teu buraco
para o bicho do sol na greda.

Eis-nos sob as mesmas folhas
e o mesmo céu
para onde tu não olhas…
(Nem eu.)

Eis-nos sob a mesma lei
desta vida
onde já me cansei
de ser Rei
da Lua Repetida.

Eh! amigo lagarto!
Não imaginas como estou farto
da monotonia
dos homens e da natureza.

Vá! Faz-me uma surpresa.
E qualquer dia
sai da toca
com uma estrela verde na boca.
(Ou um manifesto
clandestino
de protesto
contra este nosso destino
de sardão
– em que até o sol parece chão.)

In «Poeta militante – Viagem do Século Vinte em mim» (1.º volume), obra poética completa de José Gomes Ferreira, colecção «Círculo de Poesia», Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977 (1.ª edição).

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