quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Poema «IX» de PESSOAIS (1939-1940), de José Gomes Ferreira

Imagem encontrada em http://importanzadeleparole.ilcannocchiale.it/

(Outro poema cortado pela Censura. Na
«Seara Nova». A «serenata cínica» para o
Edmundo Bettencourt cantar. O querido
Edmundo, magro como um grito.)

Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
– pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos,
estatelada no solo…
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem prata.

Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra
ou então salta prá lua
e mija de lá na terra.

In «Poeta militante – Viagem do Século Vinte em mim» (1.º volume), obra poética completa de José Gomes Ferreira, colecção «Círculo de Poesia», Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977 (1.ª edição).

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