sábado, 10 de janeiro de 2015

[Acabava de sofrer o primeiro ataque de pânico], excerto de «Gémeos», de Mário Cláudio

Mário Cláudio – Foto encontrada em http://portodeencontro.blogs.sapo.pt/
Se soubesse ele naquela manhã de fins de Julho que o nobre ingresso do Museu haveria de ocupar na sua mitologia privada lugar idêntico ao que na mitologia do Mundo preenchiam a escada angélica de Jacob e a corda apaixonada de Romeu e Julieta, se tanto soubesse ele, é duvidoso que a galgasse de diferente maneira. Do plano térreo que correspondia ao da entrada principal até ao andar onde se poderiam alcançar as obras do seu pintor não mediaria mais do que uma quarentena de degraus, capazes de todavia lhe alterar por completo o rumo da existência, e muito especialmente o modo de a encarar. E o dito espaço vencê-lo-ia ele a pé, ou porque outra estratégia não lhe ocorresse, ou porque se achasse fora de serviço o elevador, ou porque simplesmente lhe houvesse apetecido, o que traria como efeito que, ao chegar ao destino, lhe batesse o seu tanto o coração, e ao lançar os olhos pela área das suas reflexões, se lhe afigurasse que nunca mais haveria ele de parar. À sua frente, e num caos de linhas que se entrecruzavam e se desfaziam, mesclavam-se as cores dos quadros expostos, um rosto interrogativo, o aceno de um arvoredo, o derrube da bandeira de uma batalha, e nada pertencia a nada, e tudo aquilo que ele mentalmente fora lhe parecia ter chegado sem remissão ao termo. Era no pavor infrene que se debatia como um mar imenso, destituído de tábua de salvação, entregue ao furor que não lograva identificar senão como a catástrofe final do Universo criado. E moviam-lhe à roda, e sem que disso tomasse consciência plena, difusas formas de outras criaturas, semelhantes à que havia sido, mas tão enquadráveis ainda no Mundo, e no seu caixilho de valores rotuláveis, que não davam conta do que ali, e na pessoa daquele visitante, a morte inexoravelmente se implantara. Acabava de sofrer o primeiro ataque de pânico, de uma sinistra procissão de centenas de outros que ao longo dos anos se repetiriam, confundindo os clínicos gerais, inábeis para lidar com o fenómeno, imputando-o à hipocondria, criptotetania, a uma variante de epilepsia, ou a uma pitada de esquizofrenia, e incitando os psiquiatras a projectar uma boa dose de sessões de divã. Embrulhada em tal pacote, o dos acessos paroxísticos, vinha a caterva das habituais manifestações morbosas, a taquicardia e a dispneia, a moleza das pernas e os espasmos do estômago, o frio das mãos e o suor da testa, os desarranjos digestivos e a secura de boca, as tonturas, as constrições, as cãibras, e o medo, sobretudo o medo, o medo, o medo.

In «Gémeos» (romance), de Mário Cláudio, Colecção «Autores de Língua Portuguesa», Publicações Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 2004 (2.ª edição).

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