quinta-feira, 13 de março de 2014

[O poeta é sempre do seu tempo], registo diarístico de Miguel Torga

Foto encontrada em http://www.geocaching.com/
Coimbra, 16 de Abril de 1952 – Resposta a um inquérito do Journal des poètes.
O poeta é sempre do seu tempo, de uma maneira positiva ou negativa. Positiva, se é capaz de intuir o íntimo sentido da sua época e lhe encontra a expressão poética presente e a ressonância poética futura; negativa, se não passa de um doirador obtuso do que nessa mesma época é cisco circunstancial.
Irremediavelmente, todos os poemas são datados. E a posteridade encontra mais perenidade naqueles que simultaneamente testemunham e sugerem. De resto, como poderia o poeta não ser do seu tempo, se ele é sempre a mais alta consciência de um tempo? O poeta não é uma abstracção. É um ser real, que existe no real. Por isso, não poderá evadir-se da vida, que o marca e é marcada por ele. A fundura dessas mútuas cicatrizes é que varia.

In «Diário (6.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1978 (3.ª edição).

Sem comentários:

Enviar um comentário