sexta-feira, 14 de março de 2014

[Diante dum caderno seu, nós que nunca descobrimos nada (paz aos Descobrimentos!), como poderemos aceitar sem escândalo aquela imaginação exaltada], observação de Miguel Torga sobre Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci
Coimbra, 8 de Novembro de 1952 – Um convite, que recusei, para falar de Leonardo da Vinci. É preciso saber resistir às tentações de Satanás, mormente numa terra onde nunca se soube apreciar devidamente o alcance dos seus sortilégios. Que poderia eu dizer de interessante e original sobre uma experiência humana que nunca teve em Portugal, já não digo aproximação, mas pelo menos compreensão?
A grandeza de certas figuras é tanto delas como de exegese que se lhes junta. Ora, se formos a ver o que da nossa vida cultural consta desse esforço vivificador dos mais arrojados pioneiros do espírito, é uma desolação. E, necessariamente, quem tente fazê-lo pela primeira vez, na hipótese feliz de ser capaz disso, nem sequer pode ser entendido. Saber sei eu que Leonardo foi no palco do mundo um actor sem medida. Que, mesmo entre as demais extraordinárias presenças do Renascimento, a sua se destaca duma maneira tão singular que causa calafrios. Que há nele o que quer que seja de irredutível, de atómico, de subversivo. Mas todos nós aqui somos reaccionários. Histórica e fisiologicamente condenados às várias contra-reformas do pensamento. Clericais ou anticlericais, tanto faz – pois ambas as situações são formas degradadas da fé e do ateísmo –, nada mais fizemos em oitocentos anos de vida mental do que ralhar uns com os outros no adro das igrejas. E se nos é sensível o génio de Miguel Ângelo, por ser ainda religioso ou super-religioso – submisso, portanto, a um sistema onde se respira a ordem estabelecida, embora cada símbolo que a exprime seja hipertrofiado –, uma personalidade como a de Leonardo não é compreensível à nossa catolicidade. Na medida em que a sua força calca aos pés a humildade da Idade Média, as suas convenções e superstições – que nos governam ainda –, e lança aos quatro ventos do mundo a heresia de se conceder ao homem o poder de tudo tentar, de tudo realizar, de nada lhe ser defeso, é-nos impossível deixar de lhe fugir apavorados. Tais veleidades são-nos vedadas por serem pecados mortais. E arredamo-nos horrorizados do tentador que pela primeira vez propôs à consciência alarmada do seu tempo o direito a todas as aventuras da inteligência.
Diante dum caderno seu, nós que nunca descobrimos nada (paz aos Descobrimentos!), como poderemos aceitar sem escândalo aquela imaginação exaltada, onde as ideias se atropelam como as chamas duma fogueira? A própria multiplicidade das invenções, e o atraso com que vieram a ter realização, nos confunde. Esquecidos de que é preciso tempo para se esmoer tudo quanto é verdadeiramente novo, ficamos inibidos de compreender que ali o que verdadeiramente tem significado é o puro jogo do espírito, no seu afã de criar, de inventar seja o que for – pára-quedas, tambores automáticos, carros de assalto –, coisas úteis, inúteis, ou até perniciosas. Uma disponibilidade incansável que passe por cima do que é moral ou imoral, da noção de pátria, de família ou de qualquer sentimentalismo limitador.
Leonardo representa na história da humanidade o primeiro individualismo integral, a imposição do génio por si só. Das trevas da negação mística do homem, um sujeito aparece e diz: Eu sei isto, e aquilo, e aqueloutro, faço e aconteço! E começa a impor as suas afirmações sem uma imprensa por detrás a apoiá-lo, sem outros capitais senão os do seu talento.
Divino, agora, não é Deus; é quem seja capaz de pintar A Ceia ou possa escrever o memorando que Leonardo enviou a Ludovico Sforza. Com a orgulhosa consciência do seu poder intelectual, Prometeu vai outra vez tentar o impossível. Pela mão da confiança em si mesmo do novo titã, o esplendor da especulação grega tem finalmente a sua resposta prática. Aos teóricos do passado, opor-se-ão os realizadores do presente.
Claro que é precisamente nesse individualismo militante que reside a falência de Leonardo. Um homem assim tem de ser omnisciente, é obrigado a construir tudo de raiz. E aí vai ele utilizar tintas do seu fabrico, que se dissolvem umas nas outras como se quisessem regressar à confusão do Génesis, ou ensaiar técnicas votadas de antemão ao insucesso.
Mas até dessa falência, de que se apercebeu, pôde tirar Leonardo conclusões subtis e fecundas. Certamente por verificar que a solidão moderna que iniciava, embora criadora, é sempre solidão, a súmula da sua mensagem é de nada propor, a não ser um naturalismo trágico, de porfiada representação e transposição mecânica de toda a actividade vivente. A desolada visão antecipada do pragmatismo que tem hoje o fulgor conhecido: Um avião a voar como os pássaros, um submarino a nadar como os peixes...
E culmina aí a nossa perplexidade. Crentes optimistas, é-nos completamente alheio o primeiro sorriso do cepticismo moderno. Sorriso que tem a mesma finura e melancolia nos lábios da Gioconda, de Santa Ana e de S. João Baptista...
E Leonardo continua diante de nós impenetrável como um mistério. No florido caminho da bem-aventurança analfabeta em que vivemos, o enigma cruciante de uma outra Esfinge, ainda mais terrível e dilemática! O impenitente redutor das ideias ao concreto, a olhar-nos com a ironia irredutível da sua descrença na crença do homem!

In «Diário» (6.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1978 (3.ª edição).

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