segunda-feira, 12 de agosto de 2013

[Nessa noite devorou o seu primeiro livro], excerto de «Um caso de bibliofagia», de António Victorino D’Almeida

António Victorino D’Almeida – Foto retirada de http://vava-diando.blogspot.pt
Dormiam todos, apesar da trovoada, moídos pelo serão com as visitas, pelo álcool do espumante, dos licores e dos bagaços. Dormiam sempre que havia festa, cada um com os seus sonhos, cada um com os seus grunhidos… E de novo a luz de um relâmpago iluminou o caminho de Leonardo: já estava na sala onde havia uma estante pomposamente chamada – a biblioteca… Juntos com estatuetas e retratos, os livros aninhavam-se, lado a lado. Havia livros de todos os tamanhos, de todas as espessuras, de todas as cores… Eram belos, os livros! E ele, que era poeta, embora não soubesse fazer versos, deslizava a mão lasciva pela fieira das lombadas e sentia aquele estranho calor dos poentes cor-de-rosa, ou da espreita minuciosa de um canto de corredor onde a Aidinha tinha mil dedos…
Detiveram-se os seus dedos na carícia de um livro amarelado, de capa já esgarçada pelo tempo, nunca pelo uso… Lá fora, a tempestade uivava num furor de invernia escabrosa. Na sala, abraçado à estante, Leonardo sorria e recordava, rendia-se ao prazer da memória, ouvia a voz do Professor chamar-lhe poeta, revivia o longo diálogo em que falara r fora ouvido, as palavras justas e cuidadas que escolhera para dar de si a imagem saudável de um sôfrego devorador da filosofia que é a base transcendente do moderno saber…
E, numa volúpia gestual de câmara lenta, levou o livro amarelado à boca e começou a trincá-lo, primeiro suavemente, mordiscando as folhas do prefácio, depois com mais intensidade, num mastigar vigoroso, até ao rasgar das páginas em golpes asselvajados de mandíbula gulosa e insaciável!
Nessa noite devorou o seu primeiro livro.

In «Os devoradores de livros» (ficção), de António Victorino D’Almeida, Oficina do Livro (Leya), Alfragide, Junho de 2010 (1.ª edição).

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