terça-feira, 27 de agosto de 2013

«mudança de estação», poema de Al Berto

Imagem recolhida de www.artinnaturephotography.com















para te manteres vivo – todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma – puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar – crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele – peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação

In «Horto de Incêndio» (poesia), de Al Berto, colecção «peninsulares / literatura» (n.º 49), Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 1997 (2.ª edição).

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