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Imagem retirada de http://www.cafeportugal.net
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Na Vieira, como em toda a costa portuguesa, o Outono traz na
bagagem, ao chegar, fome e penúria, às gentes ribeirinhas.
Com ele se instala a angústia no peito dos bravos
pescadores, esses seres audaciosos que, com o decorrer dos anos, conquistaram
uma condição anfíbia.
Enquanto o mar é brando, rosários de gaivotas ondulam sobre
as águas, com terra à vista, entre a praia e o horizonte, entre o céu e o mar,
buscando sustento ou preparando-se para demandar o norte.
Mas quando o vento agita as águas, as aves alvas e
planadoras aproximam-se mais e mais da costa, onde fazem vida, se a chuva tomba
do céu ou a tempestade se instala no mar.
Nos primeiros cem a duzentos metros de água as ondas
enrolavam-se na própria espuma, deixando ali as mensagens, trazidas de longe,
talvez do outro lado dos oceanos.
Num destes dias de tempestade, o Melro levantou-se cedo e
desceu à praia.
O sol não rasgara ainda a neblina, daí que a procela fosse
mais apregoada pelo rugir do mar que pelo encastelar das vagas.
Fazia rio e, mesmo embrulhado no velho capote alentejano, já
em desuso e velha relíquia do avô materno, a frieza arranjava manhas para
descer entre as golas e o pescoço do rapaz e, daí, pelos interstícios da
camisola e camisa rota.
Havia meses que os barcos não se faziam ao mar e, na sua
loja, mesmo fiando de bom grado, o Palardo mostrava um ar contristado sempre
que o Melro lhe mandava assentar mais um copo de aguardente que lhe aquecesse o
corpo, ou de vinho que lhe redobrasse o ânimo.
Lá fora, bem rente ao paredão, permaneciam, como exemplares
de natureza morta, os barcos e os remos, já que às redes fora dado, em devido
tempo, restauro e abrigo.
O frustrado pescador mal levantava o olhar do “Senhora dos
Navegantes” que, na areia, mantinha a proa apontada ao mar, desde que ele e a
restante gente da companha o deixara, ali.
Mas o seu pensamento não estava tanto na faina da pesca da
sardinha, da tainha ou do cação, como na outra banda do oceano, que alguns
colegas seus, esquecidas as tradições mas também as angústias da pesca, um dia
haviam demandado.
Muitos desses amigos apareciam por ali pelas festas da
Senhora da Boa Estrela, jactando importância, exibindo cruzeiros, relatando
façanhas, mostrando os seus auríferos e rutilantes dentes.
Ah, o Brasil, esse mundo maravilhoso!... Quem lhe dera a
ele, Melro, poder deitar-se sobre aquelas ondas pressurosas e arribar às terras
de cujo maná sobreviviam e viviam tantos que, em dias de penúria, deixaram a
Vieira, o Pedrógão e tantas praias de escravidão.
Ah, se ele, imitando as gaivotas, pudesse cruzar o Oceano
parando por aqui e por ali, sobre um molho de algas, o casco dum navio ou
qualquer tábua ou pipo abandonados à tona da água. Mas… o céu é dos pássaros.
Mesmo assim, não deixava de cogitar. Porque havia ele de
continuar a viver subjugado à fome e atormentado pelo frio, em barracas
esburacadas pelo tempo e pela maresia?
Com o rolar da manhã, a neblina foi-se afastando, deixando
que a espuma prateasse a areia.
Estacas longas e desoladas, empinadas na praia, aguardavam
as redes que há três meses, ao partirem, as tinham deixado nuas e fúteis.
Como carneiros em rebanho, as gaivotas acotovelavam-se na
areia húmida e alisada pelas vagas.
O mar desenhava trilhos de neve, por vezes suja, quando as águas
tresloucadas se estatelavam na areia.
De longe em longe, as ondas serenavam, trazendo à memória do
frustrado jovem o tempo saudoso do verão e da azáfama.
Triste vida a dum pescador de arrasto a quem estranha magia
prende a uma permanente escravidão! Mas… conseguiria o Melro sobreviver tão
longe deste ruído constante, ora cavo ora agudo, ara forte ora brando, que nem
um só dia, um só momento, mesmo, deixara de escutar desde o seu nascimento? E
que mais saberia ele fazer que lançar redes e colher redes; empurrar barcos e
puxar barcos; carregar cestos e despejar cestos; avistar areia e palmilhar
areia? Ainda se soubesse juntar duas letras!...
In «O céu é dos pássaros – Drama da
emigração para França», romance de Luís Lourenço, edição de autor, Leiria,
2005.