sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SÓ MAIS UMA COISA, por Luigi Pirandello

Imagem encontrada em http://www.brasil247.com/

Deixe-me dizer mais uma coisa, e depois chega.
Não quero ofendê-lo. A sua consciência, diz você. Não quer que seja posta em dúvida. Tinha-me esquecido, desculpe. Mas reconheço, reconheço que para si próprio, dentro de si, não é como eu, de fora, o vejo. Não por má vontade. Gostaria que estivesse ao menos convencido disso. Você conhece-se, sente-se, quer-se de um modo que não é o meu, mas o seu; e crê, uma vez mais, que o seu está certo e o meu errado. Será, não nego. Mas pode o seu modo ser o meu e vice-versa?
Cá estamos nós a voltar ao princípio!
Eu posso crer em tudo isso que me diz. Creio. Ofereço-lhe uma cadeira: sente-se; e tentemos pôr-nos de acordo.
Depois de uma boa horinha de conversa, entendemo-nos perfeitamente.
Amanhã aparece-me de mãos no rosto, a gritar:
– Mas, como? O que entendeu? Não me tinha dito assim e assim?
Assim e assim, perfeitamente. Mas o problema é que você, meu caro, nunca há-de saber, nem eu lhe poderei nunca comunicar, como se traduz em mim aquilo que você me diz. Não, você não falou turco. Usámos, eu e você, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e você, de as palavras, em si, serem vazias? Vazias, meu caro. E você enche-as do seu sentido, ao dizer-mas; e eu, ao acolhê-las, encho-as inevitavelmente do meu sentido. Julgámos que nos tínhamos entendido; não nos entendemos de todo.
Oh, também esta é história velha, já se sabe. E eu não pretendo dizer nada de novo. Apenas volto a perguntar-lhe:
– Mas então porquê, santo Deus, continua a fazer como se isso não se soubesse? A falar-me de si, se sabe que para ser para mim o mesmo que é para si próprio, e eu para si o mesmo que sou para mim, seria preciso que eu, dentro de mim, lhe desse aquela mesma realidade que você dá a si próprio, e vice-versa; e isso não é possível?
Infelizmente, meu caro, por mais que você faça, dar-me-á sempre uma realidade à sua maneira; e não digo que não possa ser, talvez seja, mas de uma «minha maneira» que eu não sei nem nunca poderei saber, que só você saberá, pois me vê de fora; portanto, uma «minha maneira» para si, não uma «minha maneira» para mim.
Oxalá houvesse fora de nós, para si e para mim, oxalá houvesse uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, quero dizer, em si mesmas iguais e imutáveis. Não há. Há em mim e para mim uma realidade minha: aquela que eu me dou; uma realidade sua em si e para si: aquela que você se dá; as quais não serão nunca as mesmas, nem para si nem para mim.
E então?
Então, meu amigo, temos de nos consolar com isto: a minha não é mais verdadeira que a sua, e tanto a sua como a minha duram um momento.
Anda-lhe a cabeça à roda? Bom, bom… concluamos.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

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