quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

FECHEMOS O PARÊNTESIS, excerto do romance «Um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

«Golconda», de René Magritte (1953)
Contudo, esforçar-me-ei para vos dar, podem crer, aquela realidade que vocês julgam ter, que é como quem diz, para vos querer em mim tal como vocês se querem. Não é possível, como já bem o sabem, uma vez que, por mais esforços que eu faça para vos representar à vossa maneira, será sempre «à vossa maneira» só para mim, não «à vossa maneira» para vocês e para os outros.
Mas, com a vossa licença: se para vocês eu não tenho outra realidade fora daquela que vocês me dão, e estou pronto a reconhecer e a admitir que ela não é menos verdadeira do que aquela que eu me poderei dar, aliás, que para vocês ela é a única verdadeira (e sabe Deus o que é essa realidade que vocês me dão!), querem agora queixar-se daquela que eu vos darei, com toda a boa vontade de vos representar, o mais que me é possível, à vossa maneira?
Não presumo que vocês sejam como eu vos represento. Já disse que vocês não são sequer aquele que representam para vós mesmos, mas sim muitos ao mesmo tempo, de acordo com todas as vossas possibilidades de ser, e com os acasos, as relações e as circunstâncias. Portanto, que desfeita vos faço eu? Vocês é que me fazem desfeita, por julgarem que eu não tenho ou não posso ter outra realidade fora desta que vocês me dão, a qual, podem crer, é apenas vossa, é uma ideia vossa, é a ideia que fizeram de mim; é uma possibilidade de ser, tal como vocês a sentem, como vos parece e como a reconhecem possível em vós, uma vez que, daquilo que eu possa ser para mim, não só vocês não podem saber nada como eu próprio não posso.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

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