segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

«RIOS SEM DISCURSO», poema de João Cabral de Melo Neto, dedicado a Gabino Alejandro Carriedo

Rio Jaguaribe – https://upload.wikimedia.org

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

*
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

In «A educação pela pedra», de João Cabral de Melo Neto (posfácio de Carlos Mendes de Sousa), volume doze do Curso Breve de Literatura Brasileira (direcção de Abel Barros Baptista), Livros Cotovia, Lisboa, Abril de 2006 (1.ª edição).

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