sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

[Agora vou andar de eléctrico a toda a hora], excerto de «A Sombra de Mart», de Stig Dagerman

Stig Dagerman – foto encontrada em http://www.biografiasyvidas.com/
[…]
Não vês como sou vaidoso? Outra vez diante do espelho! São uns belos traços. Percebes, eu odiava os heróis. Tu fizeste com que eu os ame. E me ame a mim mesmo. Amar-me pelo que fiz. Sabes quando me apaixonei pela primeira vez. Foi aqui. Neste quarto. Quando descobri que podia fazer medo. Mas nessa altura apaixonei-me apenas de forma romântica. Não como agora: com verdadeira paixão. E sabes quando me apaixonei com verdadeira paixão por mim mesmo? Foi mais tarde esta noite. Foi no momento de uma outra descoberta. A descoberta de que era capaz de matar, mãe. Pensa nisto, ser assim tão forte. Consegues compreendê-lo? Consegues compreender que quem é assim tão forte tem o dever de se amar a si mesmo? A Teresa? Não era do amor dela que eu precisava. Foi um mal-entendido. Eu apenas acreditava que ela talvez pudesse libertar-me do meu ódio por mim mesmo. Mas também isso era algo que eu devia fazer sozinho. Mas se tu soubesses os mal-entendidos que eu tive sobre estas questões. Eu era fraco e pensava: Não é bom falar dos heróis, pensava eu. Da mesma maneira que não se fala do carrasco não se deve falar do herói. Nem antes. Nem depois. Quanto muito no decurso da acção. Mas agora percebo: De que mais poderíamos falar? Que outra experiência na vida de um ser humano poderia valer mais do que o ter matado pela primeira vez? Diz-me! Pensa nisso. Durante uns tempos não conseguia andar de eléctrico. Logo a seguir à guerra. Uma manhã estava nas traseiras do eléctrico. Não se passou nada de especial. Estava entalado no meio só de homens. Alguns tinham medalhas. Outros tinham apenas participado na guerra. Então senti um cheiro estranho. Cada vez mais intenso. E de repente atingiu-me como um raio: Gabriel, todos estes homens à tua volta mataram um ser humano! Compreendes que saltei do eléctrico, de tal maneira que quase me matei. Agora vou andar de eléctrico a toda a hora. E sem sentir o cheiro do sangue. Podes ter a certeza disso. Mas sabes o que vou fazer primeiro?

Gabriel vai à porta.

Sim, vou dizer-te. Vou descer à rua. E atravessar a praça. E a seguir? A seguir vou regressar, claro está. A casa! E ao caminhar direi a mim mesmo: É a primeira vez que atravesso a praça sem que tu vás à janela para me vigiar. Percebes o que isso significa? Espero que não chova. Boa noite, mãe.
[…]

In «A Sombra de Mart», drama em três actos (1948) de Stig Dagerman (tradução de Luís Assis e Melanie Mederlind; e prefácio de Stig Dagerman), Edições Cotovia, Lisboa, 1999 (1.ª edição).

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