quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A EXPLICAÇÃO, excerto do romance «Um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

A notícia daquele estranho incidente na Badìa Grande e de eu ter de lá saído precipitadamente, levando nos braços Anna Rosa ferida, espalhou-se por Richieri num instante, dando imediatamente pretexto para maledicências que, de tão absurdas, a princípio achei ridículas. Estava muito longe de supor que pudessem não só parecer verosímeis, como serem tidas por verdadeiras; e não apenas por aqueles a quem convinha pô-las em circulação e fomentá-las, mas até mesmo por aquela que levei nos braços, ferida.
Precisamente.
Porque Gengè, meus senhores, aquele estupidíssimo Gengè de Dida, minha mulher, alimentava secretamente, sem eu saber de nada, uma ardente simpatia por Anna Rosa. Dida metera isso na cabeça; Dida, que fizera essa descoberta. Nunca dissera nada a Gengè, mas confidenciara-o, a sorrir, à amiguinha, para lhe agradar e talvez também para lhe explicar que, se Gengè a evitava quando ela a vinha visitar, lá tinha os seus motivos: tinha medo de se apaixonar por ela.
Não me reconheço no direito de desmentir essa simpatia de Gengè por Anna Rosa. Poderei, quando muito, afirmar que para mim não era verdadeiras; mas nem isso estaria correcto, Porque efectivamente nunca me preocupara em saber se sentia antipatia ou simpatia por aquela amiga da minha mulher.
Julgo que já demonstrei suficientemente que a realidade de Gengè não pertencia a mim, mas a Dida, minha mulher, que lha tinha dado.
Portanto, se Dida atribuía ao seu Gengè essa simpatia secreta, pouco importa se para mim ela não era verdadeira; era tão verdadeira para Dida que a levar a encontrar nisso a razão pela qual eu me mantenha distante de Anna Rosa; e era tão verdadeira também para Anna que os olhares que eu por vezes lhe dirigia de fugida tinham sido em vez disso interpretados por ela como algo mais, pelo que eu não era o Gengè engraçadinho e tontinho que a minha mulher imaginava, mas um senhor Gengè infeliz que devia sofrer sabe-se lá que suplícios no seu corpo por ser considerado e amado como tal pela própria mulher.
Pois, se pensaram bem, isto é o menos que pode resultar das tantas realidades insuspeitadas que os outros nos dão. Superficialmente, costumamos chamar-lhes falsas suposições, juízos errados, atribuições gratuitas. Mas tudo aquilo que se pode imaginar de nós é realmente possível, ainda que para nós não seja verdadeiro. O facto de não ser verdadeiro para nós é motivo de troça para os outros. Para eles é verdadeiro. Tão verdadeiro que pode até suceder que os outros, se não nos agarrarmos com força à realidade que por nós mesmos nos demos, podem induzir-nos a reconhecer que mais verdadeira do que a nossa própria realidade é a realidade que eles nos dão. Ninguém teve, mais do que eu, experiência disso.
Vi-me, portanto, sem saber de nada, enamorado de Anna Rosa e, por esse motivo, envolvido no incidente do disparo na abadia duma maneira que nunca teria imaginado.
Dando assistência a Anna Rosa, depois de a ter transportado para casa em braços e estendido na sua cama, ter corrido a buscar um médico e uma enfermeira, e prestado os primeiros socorros que o caso requeria, também eu de repente senti ser mais que possível, verdadeiro, o que ela imaginara de mim em consequência das confidências de Dida: a minha simpatia por ela. E, sentado aos pés da cama, na intimidade cor-de-rosa do seu quartinho agredida pelo odor desagradável dos medicamentos, pude ouvir da sua boca todas as explicações. Em primeiro lugar, a do revólver na bolsinha, causa do incidente.
Como me ri com vontade, imaginando que alguém pudessem supor que ela o levar por minha causa, ao marcar-me encontra na abadia!
Trazia aquele revólver sempre consigo, na bolsa, desde que o encontrara na algibeirinha dum colete do pai, que falecera subitamente, havia seis anos. Pequenino, com o punho em madrepérola, muito luzidio e vivo, parecera-lhe um brinquedo, ainda mais encantador por encerrar, no seu bonito mecanismo, o poder de dar a morte. E confidenciou-me que mais de uma vez, em certos momentos não raros, em que o mundo à sua volta, por estranhas angústias da alma, lhe parecia estulto e vão, tivera a tentação de o pôr à prova, brincando com ele, sentindo nos dedos, na macieza luzente do aço e da madrepérola, a delícia do tacto. Mas que ele agora, não na têmpora ou no coração e não por vontade dela, tivesse podido, por puro acaso, mordê-la num pé, e para mais correndo o risco – como se receava – de ficar coxa, causava-lhe um desagrado invulgar. Acreditava que se tinha apropriado tanto dele que ele já não tinha, para ela, esse poder. Agora, considerava-o mau. Tirava-o da gaveta da mesa-de-cabeceira, junto à cama, olhavam para ele e dizia-lhe:
– Mau!
E porquê aquele encontra na abadia, no locutório da tia monja? E aquelas sete freiras que, em vez de se preocuparem por ela estar ferida, me falavam, como que obcecadas, da visita de não sei que Monsenhor?
Também tive a explicação para este mistério.
Ela sabia que naquela manhã Monsenhor Partanna, bispo de Richieri, iria visitar as velhas irmãs da Badìa Grande, como costumava fazer todos os meses. Para as velhas freiras, essa visita era como a antecipação da bem-aventurança divina; por isso, correr o risco de a estragar por causa do infausto incidente for a para elas a maior consternação. Fizera-me ir até à abadia porque queria que eu falasse imediatamente, nessa manhã, com o bispo.
– Eu, com o bispo? Mas porquê?
Para obstar a tempo aquilo que se estava a tramar contra mim.
Queriam realmente interditar-me, denunciando-me como mentalmente incapaz. Dida informara-a de que já tinham sido recolhidas e organizadas todas as provas, por Firbo, Quantorzo, seu pai e ela própria, para demonstrar a minha evidente incapacidade mental. Muitos estavam dispostos a testemunhar; até aquele Turolla que eu defendera contra Firbo e todos os empregados do banco; até Marco di Dio, a quem tinha feito doação de uma casa.
– Mas ficará sem ela – não pode conter-me sem fazer esta observação a Anna Rosa. – Se eu for declarado como mentalmente incapaz, o acto de doação será nulo!
Anna Rosa desatou a rir na minha cara, da minha ingenuidade. Certamente tinham prometido a Marco di Dio que, se testemunhasse como eles queriam, não perdia a casa. De resto, ele podia testemunhá-lo mesmo em consciência.
Olhei expectante para Anna Rosa, que ria. Ela reparou e pôs-se a gritar:
– Mas é claro! Tudo loucuras!, tudo loucuras!
Contudo, regozijava-se com elas, aprovava-as, e ainda mais se o que eu pretendia com elas era chegar realmente à maior de todas, isto é, arrasar o banco e afastar de mim uma mulher que for a sempre minha inimiga:
– Dida?
– Não acredita?
– Sim, inimiga; agora.
– Não; sempre!, sempre!
E informou-me que havia muito tempo que procurava fazer ver à minha mulher que eu não era aquele néscio que ela imaginava, em longas discussões que lhe tinham custado um esforço enorme para refrear o despeito que lhe causava a obstinação daquela mulher em querer ver, em tantas palavras e actos meus, uma idiotice que não existia, ou um mal que só um espírito deliberadamente inimiga podia ver neles.
Fiquei siderado. De repente, graças às confidências de Anna Rosa, vi uma Dida tão diferente da minha e contudo tão igualmente verdadeira que senti – nessa altura, mais que nunca – todo o horror da minha descoberta. Uma Dida que falavam de mim como eu nunca teria de todo imaginado que pudessem falar, inimiga, até, da minha carne. Todas as recordações da nossa intimidade comum desligadas e traídas de forma tão indigna que, para s reconhecer, tinha de supercar com despeito o seu lado ridículo de que antes não me apercebera e seconder uma vergonha que antes, quando eram secretas, não me parecera que devesse sentir. Como se à traição, depois de me ter induzido, confidante, a desnudar-me, escancarasse a porta e me expusesse à chacota de quem quisesse entrar para me ver assim, nu e sem ter com que me cobrir. E apreciações a respeito da minha família, e juízos sobre os meus hábitos mais naturais, que nunca teria esperado dela. Em suma, uma outra Dida; uma Dida verdadeiramente inimiga.
No entanto, tenho a certeza de que com o seu Gengè ela não fingia; com o seu Gengè era tal e qual como podia ser para ele, perfeitamente íntegra e sincera. Depois, fora da vida que podia ter com ele, tornava-se outra: aquela outra que ou lhe convinha, ou lhe agradava, ou realmente sentia ser para Anna Rosa.
Mas de que me admirava eu? Não podia eu também deixar-lhe, íntegra, o seu Gengè tal como ela o forjara e ser outro à minha maneira?
Era assim comigo, como o era com toda a gente.
Não devia ter revelado o segredo da minha descoberta a Anna Rosa. Foi ela que me tentou a fazê-lo, por aquilo que me deu a saber, tão inesperadamente, a respeito da minha mulher. Nunca teria imaginado que a revelação lhe produziria no espírito a perturbação que produziu, a ponto de leva-la a cometer a loucuras que cometeu.
Mas primeiro falarei da minha visita a Monsenhor, a que ela própria me instigou com muita insistência, como se fosse coisa que não tolerasse mais demoras.

In «Um, ninguém e cem mil», romance de Luigi Pirandello (revisão de Cláudia Chaves de Almeida), Cavalo de Ferro, Lisboa, Fevereiro de 2014 (3.ª edição).

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