sábado, 27 de abril de 2013

Excerto de uma intervenção política de Miguel Torga em Arganil, em 23 de Abril de 1976


Quando, já lá vão muitos anos, a inventariar coisas da pátria, vi Arganil pela primeira vez e me enamorei da sua rústica capelinha de São Pedro, honradamente construída de pedra rolada, estava longe de supor que esta terra viesse a figurar tão grata e repetidamente no meu itinerário existencial. Mas a vida é uma surpresa quotidiana, mesmo se não damos por isso. A minha, pelo menos. Aqui tratei o melhor que pude, na sua Misericórdia, milhares de doentes; aqui venho acordar o Alva nas madrugadas cinegéticas; aqui acompanhei à última morada os restos mortais, quase abandonados, de Veiga Simões, um dos seus filhos mais ilustres, que os esbirros dum déspota perseguiram até à cova; aqui me trouxeram, e continuam a trazer, cuidados cívicos. Hoje é em função deles, precisamente, que me encontro entre vós. Felizmente, de resto, porque em poucos sítios de Portugal e diante de nenhum mais adequado auditório eu poderia abrir tão confiada e proveitosamente o coração apertado. E sem retórica o digo.

In «Fogo Preso», de Miguel Torga, edição de autor, 1976.

CONSULTAR:
«Correspondência de um diplomata no III Reich – Veiga Simões: ministro acreditado em Berlim de 1933 a 1940»

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