quinta-feira, 25 de abril de 2013

PREFÁCIO (do livro «Fogo preso»), de Miguel Torga

Miguel Torga (Adolfo Rocha)
QUERIDO LEITOR:

Vais ler, baptizadas com um título simbólico, algumas páginas de circunstância. Fogo preso é, como sabes, a expressiva designação de um género de pirotecnia em que toda a inventiva se processa ao rés-do-chão. Ao invés da girândola, do morteiro ou do simples foguete de três respostas, que são delírios soltos, aqui a fantasia arde, roda, faísca, estoira, mas não voa. Amarrado, o engenho do artífice não tem licença para subir ao céu de nenhuma ilusão e desprender-se de lá, no fim da vertigem, numa lágrima de colorida melancolia.
Fiado no poder analógico da imagem, na força alusiva com que ela poderia inculcar às atenções despertas a atmosfera concentracionária dos nossos últimos cinquenta anos ou a espécie de respiração suspensa em que o convulso vinte e cinco de Abril nos tem mantido, resolvi subordinar-lhe o conteúdo do livro, mesmo o que nele parece menos condicionado e contrafeito. Na verdade, tão premente e subversivo foi, em dado momento, acusar o poder armado, tecto de todas as arbitrariedades, como alertar agora a consciência nacional contra os equívocos de uma libertação sem francas vocações de liberdade. E se outrora já era penoso, a propósito de uma simples comemoração ou homenagem, denunciar por dever de ofício o espírito da velha Universidade coimbrã – que na sua tacanhez provinciana, na sua presunção dogmática, na sua intransigência, tanto suporte e alento tem dado às várias ordens reinantes –, não o é menos, hoje em dia, subir a um estrado e expor a timidez, com a aflição contida de quem se sabe sozinho e nunca fala senão à sobreposse. Fogo Preso, portanto, pois que por vários lados o rótulo servia. Na pior das hipóteses, se algo de mais não dissesse, restar-lhe-ia a virtude de emprestar o seu calor a alguns ímpetos de comunicação reduzidos à impotência…
Páginas de circunstância, realmente, datadas como nenhumas outras no tempo e na motivação. Redigidas no ardor da refrega, sem premeditação e sem vagar, à queima-roupa, pergunto a mim mesmo que frémito poderão guardar ainda dessas horas de protesto. Em que medida serão capazes de mostrar convincentemente à curiosidade vindoira a experiência trágica que as motivou. A via dolorosa de um povo inteiro, sucessivamente traído com o mais cínico desprezo ou o mais demagógico impudor, a que só alguns, de longe em longe, por especial benevolência ou táctica do opressor – e debaixo do seu olhar vigilante – davam expressão indignada e dorida, multiplicada a medo pelo arrebatamento catártico ou mimético dos restantes.
Espécimes de grafia singular, mais revulsivos que impressivos, todos os trechos panfletários enfermam do mesmo mal. Em vez de inspiradamente revelarem à consciência colectiva a fisionomia profunda que a configura, é a paixão colectiva que neles vem à tona e neles se corporiza, seja pela expectativa com que porventura os aguardou, pelo entusiasmo com que acaso os aplaudiu, ou até pela qualidade do silêncio que manteve a ouvi-los.
À sua profana maneira, cada manifestação cívica é uma missa solene. E é como sucedâneo religioso que um comício, ao mesmo tempo, se nobilita e se degrada. O que subconscientemente toda a assembleia espera é que, através dos seus rituais gregários, as orações proferidas sejam como que exórdiios consubstanciais de uma comunhão geral. Nunca o tribuno diz de si ou dos presentes nada que valha. Mesmo sem querer, serve-se magicamente de uma linguagem superlativa, encantatória, que tenha avanço e recuo conforme as ondulações afectivas da multidão. Ansioso, atento e sensível à mais ligeira reacção dos participantes, embruxado pelo som da própria voz e medido pelo tamanho das objurgatórias que vocifera, tem tanta necessidade de se convencer do que afirma como de convencer os outros. E só quando, num esforço de auto-sugestão e teimosa indução, acaba por ficar sugestionado e consegue sugestionar o auditório, o milagre acontece. Nesse momento, a comunicação é recíproca e o transe é perfeito. O rio de veemência entra no mar emotivo e perde-se na imensidão sonora. Os horizontes da ideia pregada pouco ou nada terão sido alargados; mas saiu reforçada a fé na ideia. A retórica é isso, de resto: uma exaltação que apenas na ambivalência encontra o seu tónus. Se a música não empolga, deixa de ser um hino.
Porque se operam no campo versátil da opinião pública, os textos de carácter prosélito são verdadeiras criações colectivas, pois que só no espelho do aplauso eles se reflectem acabados e agónicos. Antes dessa glorificação, não passam de barro verbal atirado à parede. Depois dela, resta-lhes o esquecimento ou o pó dos arquivos. Uma produção literária pode esperar o tempo que for preciso para ser elaborada, lida e compreendida. Mas as alocuções políticas têm os minutos de vida contados à nascença, e o juízo que as condena ou absolve é sumário e sem apelo. Próximo delas, o teatro, que também radica a vitalidade na reacção das plateias, beneficia, contudo, do recurso à emenda, à modificação, ao acerto e até à actualização em posteriores representações. O discurso, esse, esgota-se no acto de ser pronunciado. E, quem diz discurso, diz entrevista, mensagem, palestra, ou a mais ingénua lauda de natureza empenhada, a que só o carácter activista dá episódica razão de ser. Lembram aquelas fotografias instantâneas tiradas nos parques e nas feiras. O fotografado fica bem ou mal, irremediavelmente. Não há segunda prova do retrato.
Assim, ao lado de outras, talvez menos precárias, que darão testemunho do poeta, ficarão estas páginas, sem vocação e sem torno, a mostrar o cidadão. O cidadão que nos momentos inadiáveis de optar e de afirmar optou e afirmou, e que nos de correr um risco que não podia ser protelado o correu também, numa profissão de fé em que assumia antecipadamente toda a frustração que viesse a seguir. Há ocasiões em que a consciência de um escritor, por muito lúcido que seja, passa pela exigência, mesmo caprichosa, dos seus leitores. E, então, não pode hesitar nem inibir a caneta. Se determinados textos têm de estar à altura da obra de um autor, outros terão de estar à altura do autor da obra. Mais do que a doutrina que exponha e o brilho literário que exiba, é o aval do seu nome que está em jogo. E tem de fazer das tripas coração. Qualquer galeriano das letras, enquanto tal, só usa a pena ao serviço do artista que é. Escrevendo, salva-se a si próprio e salva, no que escreveu, quem depois o lê. A sua função é criadora, portanto, e não pedagógica. Mas porque é também um homem socialmente responsável, quando reconhecido na sua sinceridade, sente que tem o dever de ir junto dos que acreditam nele. E ei-lo transformado num paladino, com o verbo a vibrar por conta da grei. Simplesmente, muito do que poderá dizer, agora por obrigação e por extenso, já o tinha dito antes gratuita e sobriamente. E cai no paradoxo de acrescentar à sua obra o seu próprio comentário, muitas vezes a estragar com ênfase o que era singelo na origem. Podendo ocasionalmente ser um céptico, por não ter razões objectivas de esperança ou o seu optimismo se reduzir ao deliberado propósito de encontrar um sentido feliz à História, diante de uma leitura de esperança imediata que lhe façam nas entrelinhas do que escreveu, que remédio senão empunhar essa esperança e transformá-la em bandeira do advento próximo! E bandeira rubra, se possível, como o sangue ardente e solidário que lhe corre nas veias.
A desgraça é que, na maioria dos casos, a abnegação é em pura perda. Os exemplos abundam desde que Portugal existe. Os de Herculano, de Oliveira Martins e de Antero são eloquentes. Um a ser desrespeitado no parlamento, outro a ser corrido de ministro, e o terceiro a servir de bode expiatório no fracasso da Liga Patriótica do Norte. Pondo em termos peremptórios coisas que eram de menos evidência, coagido a falar do que lhe não vai na índole, animado de uma militância que no fundo não lhe apetece, ou a exortar vontades que no íntimo se riem dele, o artista acaba por verificar, quase sempre, que nem sequer valeu a pena o sacrifício. Os resultados são notoriamente parcos ou nulos. Quando muito, o mais que conseguiu foi ser acompanhado apenas no tempo episódico da oralidade. Ou, então, é quase certo negarem-lhe os triunfos que alcançou e responsabilizarem-no pelas derrotas de que não é culpado.
Ao fazer-se homem público, o poeta empresta a voz a quem a não tem, e arrisca-se a ficar sem voz e sem eco. Os ouvidos da multidão ouvem mas não escutam. Porque, afinal, toda a sociedade é, no fundo, conformista. Revoltado e sincero, só ele. Só ele deseja com todas as veras da alma um mundo inequivocamente livre, onde cada qual tenha vergonha da condição diminuída do semelhante, e ninguém se sinta privilegiado e se esbarre com outra sombra que não seja a sua. Infelizmente, esse anelo, aninhado no seu desespero, não se põe apenas à escala cívica, nem à escala histórica, mas ao nível do que vai de eternidade na pessoa e no tempo.
Seja como for, acossado pelos problemas do quotidiano pátrio, vinculado pela dignidade e solicitado por mil apelos, também eu roubei às minhas horas autónomas de criador, algumas horas de contestação directa. E são elas, já só mornas como brasas apagadas, que tenho agora à minha frente, amortalhadas nestes papéis, documentos de uma actuação vã e inevitável como os destinos que têm de se cumprir, bem ou mal. Papéis que não posso destruir, porque seria destruir uma parte de mim, e que só publico porque não quero lavar as mãos de nenhum dos actos que pratiquei.

In «Fogo preso», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1976.

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