segunda-feira, 22 de abril de 2013

Excerto de «O golpe de misericórdia», de Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar – Foto retirada de http://frases.globo.com
Fi-lo revistar sem lhe encontrar nos bolsos um único papel que me informasse sobre o destino de Sofia. Em compensação, trazia consigo um exemplar do Livro de Horas de Rilke, que Conrad também tinha apreciado. Este Grigori fora provavelmente o único homem, naquele país e naquela época, com quem eu teria podido conversar agradavelmente durante um quarto de hora. É preciso reconhecer que essa mania judaica de se elevar acima do comércio de velharias paterno tinha produzido em Grigori Loew esses belos frutos psicológicos que são a dedicação a uma causa, o gosto pela poesia lírica, a amizade para com uma jovem ardente e, finalmente, o privilégio, um tanto aviltado, duma bela morte.
Um punhado de soldados resistia ainda no celeiro de feno situado no alto duma granja. A longa galeria sobre estacaria, vacilando sob a pressão das águas, ruiu finalmente com alguns homens agarrados a uma longa trave. Colocados na contingência de ter de escolher entre o afogamento e a execução, os sobreviventes renderam-se sem alimentar ilusões quanto à sorte que os esperava. De uma, e outra parte, já se não fazia prisioneiros – e como arrastar prisioneiros atrás de si naquela devastação? Um a um, seis ou sete homens extenuados desceram com passo incerto a íngreme escada de mão que conduzia do celeiro de feno ao barracão, a abarrotar de pequenos fardos de linho bolorento e que dantes servira de armazém. O primeiro, um jovem gigante loiro ferido na anca, vacilou, falhou um degrau e estatelou-se no solo, onde alguém o acabou. De súbito, reconheci no alto dos degraus uma cabeleira resplandecente e em desalinho, idêntica à que vira desaparecer debaixo da terra três semanas antes. O velho jardineiro Miguel, que me tinha vagamente acompanhado à maneira duma ordenança, levantou a cabeça entontecida por tantos acontecimentos e fadigas, e exclamou estupidamente:
– Menina…
Era efectivamente Sofia, que me fez de longe o aceno de cabeça indiferente e distraído duma mulher que reconhece alguém, mas que não tem empenho em ser abordada. Vestida, calçada como os outros, dir-se-ia um soldado muito jovem. Atravessou com passo longo e flexível o pequeno grupo hesitante reunido na poeira e na fraca luminosidade da alva, aproximou-se do jovem gigante louro estendido junto da escada, lançou sobre ele o mesmo olhar duro e terno que tinha concedido ao cão Texas numa tarde de Novembro, e ajoelhou-se para lhe fechar os olhos. Quando se levantou, o rosto retomara a expressão ausente, monótona e tranquila como a dos campos lavrados sob um céu de Outono. Obrigámos os prisioneiros a ajudarem no transporte das reservas de munições e de víveres até à estação de Kovo. Sofia fechava a marcha; as mãos pendentes, tinha o ar desenvolto dum rapaz que acaba de ser dispensado dum trabalho penoso, e assobiava Tipperary.  
Chopin e eu caminhávamos no mesmo passo a alguma distância, e as nossas fisionomias carregadas dir-se-iam de familiares num enterro. Mantínhamo-nos calados, e cada um de nós, desejando nesse momento salvar a jovem, suspeitava o outro de se opor ao seu projecto. Quanto a Chopin, pelo menos, essa crise de indulgência não tardou a passar, pois daí a algumas horas já ele se mostrava tão decidido ao extremo rigor como teria procedido Conrad, se estivesse no lugar dele. Para ganhar tempo, dispus-me a interrogar os prisioneiros. Encerraram-nos num furgão, para gado abandonado na via, e trouxeram-mos um por um até ao gabinete do chefe da estação.

In «O golpe de misericórdia», de Marguerite Yourcenar (com introdução/prefácio de Agustina Bessa-Luís; e tradução de Rafael Gomes Filipe), colecção Biblioteca de Bolso [Literatura] (n.º 52), Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2003 (2.ª edição de bolso).

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