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quarta-feira, 2 de abril de 2014

[Na floresta de Gribs, há um lugar a que chamam o Canto dos Oito Caminhos], excerto de «O Banquete», de Sören Kierkegaard

Sören Kierkegaard – Imagem encontrada em http://edward-t-babinski.blogspot.pt/

Na floresta de Gribs, há um lugar a que chamam o Canto dos Oito Caminhos; ninguém o encontra se não o procurar convenientemente, porque não figura indicação dele em nenhum dos mapas conhecidos. Até o próprio nome parece uma contradição; pois como é que do encontro de oito caminhos pode resultar um canto; como é que a estrada real se pode conciliar com o retiro, e a senda espezinhada com o esconderijo? Se o solitário foge da trivialidade, da que deve o nome ao encontro de três vias, como não há-de ele fugir do que resulta de uma dupla encruzilhada? Tal é, positivamente, o facto: há oito caminhos, e todavia neles reina a solidão; longe do mundo, escondido, dissimulado, o homem encontra-se ali muito perto de uma clausura denominada Sebe da Desgraça. A contradição tem sempre por consequência a solidão. Os Oito Caminhos e a circulação intensa que eles representam são uma pura possibilidade, – para o pensamento; porque ninguém por ali passa, a não ser o insecto que atravessa a senda, lente festinans; ninguém os frequenta, senão aquele viajante de passos lépidos e de olhar circunspecto, que não deseja encontrar-se com qualquer animal; aquele fugitivo que, dentro do matagal, não percebe o desejo do viajante que vai em demanda de alguma mensagem; fugitivo que só a bala mortífera é capaz de atingir; e se é muito compreensível que o veado passasse a ser um animal tranquilo, já não se compreende que ele tivesse sido tão inquieto; ninguém passa pelos Oito Caminhos, a não ser o vento, do qual não sabemos de onde vem nem para onde vai. Nem o passeante atraído pelo apelo sedutor dos lugares impenetráveis que o cativaram, nem o homem que é induzido pela senda estreita a entrar no próprio coração da floresta, se encontram tão solitários como quem vai ter aos Oito Caminhos, pelos quais ninguém passa. Oito Caminhos e nenhum viandante! O mundo parece extinto, e o sobrevivente afoga-se na perplexidade quando pensa que já não há ninguém para o enterrar; dir-se-ia que toda a humanidade se escoou por estes oito caminhos, deixando por esquecimento sobreviver um homem! Se é verdadeira a frase do poeta: bene vixit qui bene latuit, eu vivi bem, porque o meu esconderijo era bom, era muito bem escolhido. Mas também é certo o seguinte: que o mundo, e tudo quanto ele encerra, nunca nos aparece tão belo como quando avistado de um mirante que propositadamente escolhemos para a observação. Certo é ainda também que tudo quanto o mundo diz, e tudo quanto nos convém ouvir, ganha a melodia dos sons mais belos e mais encantadores quando é por nós escutado dentro de um recanto secreto. Tais os motivos que frequentemente me levaram a procurar aquele retiro. Havia já muito tempo que eu o conhecia; já não precisava de esperar pela noite para conseguir o desejado silêncio, porque naquele recanto sempre reinam a paz e a beleza; mais belo do que nunca me parece ele àquela hora em que o sol de Outono inclina para o horizonte, num azul elanguescido; o calor passou, e tudo que vive respira ao sopro da brisa que brinca através da floresta, enquanto vai semeando pelos prados um frémito de deliciosa volúpia; o sol vai sonhando com a frescura das vagas em que irá banhar-se; o mundo regressa ao seu recolhimento, a agradece os benefícios dos esplendores do dia; a terra e o céu parecem exprimir ternas despedidas naqueles lugares em que a floresta soturna vai dominando a verdura dos prados.

In «O Banquete (In Vino Veritas)», de Sören Kierkegaard (com tradução e apresentação de Álvaro Ribeiro), Colecção Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores, Março de 2002 (6.ª edição).

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