segunda-feira, 21 de abril de 2014

«DESLIÇÃO DE ANATOMIA», poema de Mia Couto

Imagem encontrada em http://inconscientecoletivo.net/palavras-tem-poder/#

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no humano corpo,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!

Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

«tradutor de chuvas» (poesia), de Mia Couto, Editorial Caminho (grupo Leya), Alfragide, Julho de 2013 (2.ª edição).

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