quinta-feira, 24 de abril de 2014

[É a eterna história do primeiro livro], nota biográfica sobre Edgar Allan Poe da autoria de Charles Baudelaire

Imagem encontrada em http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha
Poe deixou West Point sem se formar e começou a desastrosa batalha da vida. Em 1831, ele publicou um pequeno volume de poesias que foi acolhido favoravelmente pelas revistas, mas que não era comprado. É a eterna história do primeiro livro. O sr. Lowell, um crítico americano, diz que há uma dessas peças, endereçada “à Helena”, “um perfume de ambrósia”, e que ela não desmereceria a Antologia grega. É verdade que, pelo seu ritmo harmonioso e as suas rimas sonoras, cinco versos, dois masculinos e três femininos, ela lembra as felizes tentativas do romantismo francês. Mas vê-se que Edgar Allan Poe estava ainda bem longe do seu excêntrico e fulgurante destino literário.
Não obstante, o infeliz escrevia para os jornais, compilava e traduzia para as editoras, fazia artigos brilhantes e contos para as revistas. Os editores publicavam-nos de boa vontade, mas pagavam tão mal ao jovem que ele caiu na miséria. Ele desceu mesmo tão baixo que pôde ouvir “gritar os gonzos das portas da morte”. Um dia, um jornal de Baltimore propôs dois prémios para o melhor poema e o melhor conto em prosa. Um comité de literatos, do qual fazia parte o sr. John Kennedy, foi encarregado de julgar as produções. Entretanto, eles não se ocupavam de lê-las; a menção dos seus nomes era tudo o que lhe se pedia ao editor. Enquanto conversavam de uma coisa ou outra, um deles foi atraído por um manuscrito que se distinguia pela beleza, limpeza e nitidez dos caracteres. Ao fim de sua vida, Edgar Allan Poe possuía ainda uma escrita incomparavelmente bela. O sr. Kennedy leu uma página apenas e, tendo sido tocado pelo estilo, leu a composição em voz alta. O comité votou o prémio por aclamação ao primeiro dos génios que soube escrever legivelmente. O envelope secreto foi aberto e surgiu o nome, então desconhecido, de Poe.
O editor falou do jovem autor ao sr. Kennedy em termos que lhe deram vontade de conhecê-lo. A fortuna cruel havia dado a Poe a fisionomia clássica do poeta em jejum. Havia-o caracterizado tão bem quanto possível para o empregado. O sr. Kennedy contou que encontrou um jovem que as privações tinham emagrecido como um esqueleto, vestido com um redingote que estava, seguindo uma velha táctica bem conhecida, abotoado até ao queixo, calças em farrapos, botas rasgadas dentro das quais não havia evidentemente meias e, com tudo isso, um ar desafiador, grandes maneiras e olhos ardentes de inteligência. Kennedy falou-lhe como a um amigo. Poe abriu-lhe o coração, contou-lhe toda a sua história, a sua ambição, os seus grandes projectos. Kennedy foi ao mais premente, conduziu-o a uma loja de roupas e comprou-lhe o fato conveniente; depois apresentou-lhe as pessoas certas.

In «Edgar Allan Poe», de Charles Baudelaire (com tradução de Manuel Dias Soares), Alma Azul, Coimbra/Alcains, Outubro de 2008 (1.ª edição).

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