segunda-feira, 14 de abril de 2014

[Os leitores mais advertidos hão-de lembrar-se de um jornal chamado Corneta do Diabo, escrito por um tal Palma Cavalão], excerto de «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho – Foto encontrada em http://elsindromechejov.blogspot.pt/ 
Por essa hora, Arnaldo dava-se a uma acção retaliadora que se pode considerar temerária, tomando em conta o seu físico esguio e o feitio reservado.
Começou à entrada do elevador, quando o largo e folgazão Quintão Malpique meteu a patorra peluda entre as portas metálicas e fez disparar o sensor, evitando que fechassem. Foi Arnaldo o único entre os dez utilizadores que não riu quando o fulano veio com a sua grande frase «Ai, ai, quanto mais fulgêncio me reputo tanto mais sulfúreo me alcandoro», suscitando comentários do género «Que castiço!», «Grande Malpique!». E olhou-o furibundo, quando ele lhe deu uma palmada no ombro e, depois, lhe apertou o braço com uma familiaridade que não estava lembrado de consentir.
Mas a questão não tinha ficado por aí. Foi um daqueles dias de atabalhoamento dos deuses, lá em cima, quando tropeçam ou se distraem e começam a cruzar linhas e a encaroçar as tintas. A distância de segurança a que Arnaldo mantinha Quintão Malpique, devido a uma antipatia fininha proveniente da incompatibilidade de feitios, costumava ser preservada, não apenas pelos vidros dos gabinetes, mas pelos seus passos cautelosos que evitavam aproximar-se quando o outro se repimpava na cafetaria, a dizer graçolas.
Descortinava o leitor um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piodola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses, em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém, na passagem, examiná-lo mais de perto como espécime singular.
Se lhe perguntassem por que é que ele se tinha queixado à polícia, por carta anónima, duma velha que dependurava os cobertores nas traseiras do prédio, sem que isso afectasse ninguém, e muito menos os empregados duma empresa que não moravam ali, ele responderia, rindo: «É só p’ra chatear.» Do mesmo modo, quando telefonava para a Câmara, disfarçando a voz, a denunciar um vizinho que fazia obras clandestinas numa casa de banho, era «só p’ra chatear». Também era «só p’ra chatear» o gesto de deixar o elevador encravado no nono andar para que um casal de idosos, com o seu velho cão, tivesse de se arrastar pelas escadas.
Comprazia-se, naturalmente, com a incomodidade dos outros. Uma acção que tivesse como motivação «chatear» parecia-lhe absolutamente justificada, desde que não fosse ele o chateado. Uma representação popular – aliás falsa e caluniosa – que atribui o incêndio de Roma a Tibério Nero Enobarbo, para depois celebrar a catástrofe, a toque de cítara, poderá não andar longe do feitio de Quintão Malpique, descontando o pendor artístico.
Desde que descobrira a Internet, aliás tardiamente, tinha sido um alvoroço. Aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem. Apreciava especialmente os jornais e as suas colunas de posts.
Eis uma amostra de uma contribuição de Quintão Malpique para o debate nacional, que pode ser encontrada facilmente na imprensa electrónica, a propósito da questão, hoje esquecida, dos apoios ao cinema português:
Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!! Banquetes de lagosta, em Nice e em Cannes, aproveitando os favores do Estado e o dinheiro dos contribuintes. Isto é tudo sempre no poleiro, a chuchar no orçamento, à custa do Zé Povinho, e a gastar os nossos ricos carcanhóis com filmalhadas que ninguém percebe nem ninguém vê. Topam? Deviam era mandá-los todos cavar batatas e elas coser meias, a ver se ganhavam calos nas mãos e eram úteis ao povo que é quem mais ordena. Tá? Ao menos o doutor Salazar tinha critério e dav ao povo aquilo que o povo queria.
Os leitores mais advertidos hão-de lembrar-se de um jornal chamado Corneta do Diabo, escrito por um tal Palma Cavalão, criação do grande Eça de Queirós: «Ora viva, Sô Maia!». Pois bem, os bons espíritos encontram-se, como reza o ditado, e não só se encontram no espaço, mas também no tempo. Quase cento e cinquenta anos depois, os ecos estrídulos da Corneta do Diabo ressoam diariamente na Internet, em piruetas de comentários soezes, chalaças, calúnias, mistificações e ordinarices, sob o mesmo anonimato, e pela verve de Quintão Malpique e seus milhentos confrades.

In «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho, Colecção «O Campo da Palavra», Editorial Caminho (Grupo Leya), Alfragide, Maio de 2010 (2.ª edição).

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