segunda-feira, 14 de abril de 2014

[O almoço foi um desastre, mas Arnaldo não tinha expectativas de que viesse a ser outra coisa], excerto de «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho – Foto encontrada em ipsilon.publico.pt
O almoço foi um desastre, mas Arnaldo não tinha expectativas de que viesse a ser outra coisa. A mãe aventurara-se a um prato robusto e t8nha, com a colaboração do polícia, cozinhado um prato confuso. Já ia na letra C do «sítio» de receitas da Internet, e as amigas, porventura com alguma perfídia, não a tinham desanimado de experiências anteriores, até lhe haviam dado conselhos. E sobre comida não mais direi. A escrita não é competente para falar de sabores. Mais vale uma trincadela que um milhão de palavras.
Sim, eu sei, há todo um Eça, o grande Eça, as suas favas com arroz, o fiozinho de limão a errar subtilmente, que quase nos faz senti-lo, as orgias do Hotel Central, páginas e páginas magníficas. E lá da antiguidade acode o hábil Petrónio, a descrever-nos o banquete do seu Trimalquião, fazendo-nos água na boca com aqueles arganazes recheados com mel. E também Galsworthy, com os Forsyte a abrirem as refeições a poder da sopa de tartaruga fingida, que, antes de provar, convém averiguar do que é composta, assegurando eu que tartaruga não entra, para descanso da que figura nesta história. Tolstoi põe as suas personagens a derrubar garrafas sobre garrafas, a ponto de um mediterrânico acostumado a livre-trânsito de bebidas se interrogar como seria aquilo possível. E o que comem e o que bebem – especialmente o que bebem – as figuras de Gógol, enquanto devoram esturjões inteiros. Emparelham com Pantagruel.
Nenhum destes autores excelsos se pronunciou sobre a canja a doentes da Figueira da Foz, o que me dispensa da competição e abre um tranquilizador vazio de «angústia de influência», para usar a expressão dum crítico americano em vigor.
De resto, nisto da escrita de romances, que é uma espécie de sociedade por quotas, o leitor tem a sua parte e eu peço-lhe que tenha a bondade de a aplicar, recordando-se das vezes em que comeu canja a doentes da Figueira, e de entre elas a pior. Se conseguir imaginar uma ainda mais desengraçada, terá a canja da mãe de Arnaldo. Se ainda conseguir prestar-se a imaginá-la uns graus abaixo, terá a reservada opinião de Arnaldo sobre as virtudes culinárias da mãe e do seu polícia.

In «A arte de morrer longe», de Mário de Carvalho, Colecção «O Campo da Palavra», Editorial Caminho (Grupo Leya), Alfragide, Maio de 2010 (2.ª edição).

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