terça-feira, 5 de novembro de 2013

[Toda a ideia por detrás deste livro], excerto de Kenzaburo Oe

Kenzaburo Oe (Prémio Nobel da Literatura, em 1994) – Foto retirada de japandailypress.com
Pouco tempo antes, uma rapariga chamada Sanae, que era aluna dos primeiros anos da escola, tinha morrido repentinamente. Sofria simultaneamente da síndroma de Down e de um defeito do coração. Sanae era, apesar de tudo, uma criança excepcionalmente atractiva que era sempre escolhida para desempenhar o papel de rainha ou de princesa no teatro da escola, nunca deixou de deleitar não só as pessoas que punham de pé o espectáculo como os pais que vinham ver. Nunca tinha falado com ela, mas a sua gentil natureza surgia naturalmente, até para aqueles que se limitavam a ver longe. Quando ela morreu com um ataque do coração, toda a gente sentiu muito; depois, passados uns tempos, o professor dela sugeriu fazer um livro sobre ela, com imagens dela nos teatros da escola e nas excursões, e também com pequenas recordações de colegas, professores e pais que a tinham conhecido. Havia também as composições muito simples de Sanae e o diário, e o repórter jornalístico que os estava a ajudar a encontrar um editor – ele tinha escrito um artigo sobre a morte de Sanae – assegurou-lhes que o livro iria suscitar grande interesse no mercado.
Era um plano a que todas as outras pessoas aderiram com entusiasmo, mas Marie tinha-se mostrado tão firme na sua oposição que as professoras, que já estavam a trabalhar no projecto, acabaram por esmorecer e até começaram a chorar. Tentando conscientemente suprimir os seus sentimentos negativos e permanecer o mais neutra possível, a minha mulher contou-me o que tinha acontecido.
– Eu também gostava de Sanae – tinha dito Marie –, era uma criança gentil e amorosa. Ela simpatizava abertamente comigo, como simpatizava com toda a gente. No funeral, uma das professoras, a irmã T., perguntou por que é uma criança tão linda, que era uma fonte constante de consolação e encorajamento não só para os amigos e para a família, mas também para os professores, tinha de morrer tão jovem. Todos nós devíamos compreender a razão por que Deus tinha feito uma coisa destas, disse ela, e toda a gente acenou com a cabeça, muito séria. No entanto, se esta era a vontade de Deus, também foi pela sua vontade que Sanae, tão encantadora e delicada, carregava o peso da síndroma de Down.
«Já não deveríamos ter perguntado “Por que fez Deus isto?” naquela altura? Todos nós vivemos com crianças deficientes. Cada um de nós arranja apoio moral nessa espécie particular de beleza ou encanto ou delicadeza que tem o nosso filho. E, no entanto, cada criança tem o estigma da fealdade inevitável que vem do facto de ser deficiente. E não vemos nós de vez em quando uma característica torcida, deformada, que se encontra de vez em quando nos seus corações e que parece ser uma situação paralela à sua deformidade física? Não precisamos de confirmar para nós próprios essa disformidade; a reacção das pessoas que se cruzam com os nossos filhos quando eles descem da montanha vindos da escola para apanharem o autocarro serve de espelho para no-la mostrar como uma chaga viva. Outro aspecto da fealdade que somos forçados a admitir. Se vamos trabalhar juntos para fazer um livro que diga a verdade sobre crianças deficientes, preferiria fazer um que revelasse esta qualidade torcida e pervertida. Se não conseguimos que a sociedade aceite toda a verdade então não vale a pena todo o trabalho que é necessário para organizar um livro...
«Aquela maneira franca de falar de Marie é normalmente convincente – continuou a minha mulher –, mas creio que desta vez me tocou de maneira inversa. E depois de ela nos ver a todas caladas de perplexidade, ficou ainda mais provocadora; era como se nos estivesse a desafiar. E depois disse: “Sanae era amorosa, gentil, tinha até sentido de humor, e é por isso que nós a choramos e queremos comemorar a sua morte. Toda a ideia por detrás deste livro faz-me ver que o que uma escritora americana que tenho andado a estudar desde os meus tempos de faculdade disse uma vez estava absolutamente certo. Ver crianças deficientes através de um filme pouco nítido, de lágrimas sentimentais, em vez de encarar de frente a realidade – toda ela – fá-las reduzir a pequeninos, queridos imbecis patéticos; no fundo, conduz directamente a campos de concentração, com o fumo a sair das câmaras de gás...”
Quando Marie disse isto toda a gente ficou de boca aberta, horrorizada. Estavam tão furiosas que pareciam prontas a expulsá-la...
– Creio que sei quem é a escritora americana de quem ela estava a falar – disse eu –; apanhou uma doença incurável quando era ainda muito nova, mas continuou a escrever. Era uma católica fervorosa, e além disso uma pessoa extremamente forte. Não acho que a sua maneira de pensar tivesse audiência aqui no Japão, e se Marie estava atentar fazer as pessoas engolir essa perspectiva iria encontrar resistência em toda a parte, não só na Associação de Mães numa escola para crianças deficientes. De qualquer modo, esta escritora diz que a generosidade – a palavra que ela usa é «ternura» – pode conduzir a coisas horríveis se está desligada da sua fonte original. Quando se ouve as pessoas a falar das «pobres criancinhas deficientes», sentimos que devem ser generosas; mas entre estas pessoas generosas sempre houve os que deram mais um passo e que decidiram isolar estas crianças do resto da sociedade, esconder os pobrezinhos das multidões que ficam a olhar. E isso leva a uma instituição.

In «Um eco do céu», romance de Kenzaburo Oe (tradução de Maria Adélia Silva Melo), Difel – Difusão Editorial, Miraflores (Algés), Fevereiro de 1997 (1.ª edição portuguesa).

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