segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário], excerto de novela de Junichirō Tanizaki

Imagem retirada de http://www.clubotaku.org
24 de Abril – Este era o segundo domingo após o enfarte. Tivemos duas ou três visitas, mas não as convidei a entrar. O Dr. Kodama não veio vê-lo. O seu estado mantém-se inalterável.
Toshiko chegou por volta das duas, muito antes do costume. Ela tem vindo tarde depois do almoço, e fica apenas algumas horas. Hoje, enquanto estava ali ao lado do pai, que dormia, afirmou: “Pensei que deviam ter muitas visitas.” Ao mesmo tempo que dizia aquilo, olhava para mim.
Como não respondo, ela prosseguiu: “Mamã, não tem compras para fazer? Podia ir apanhar ar, hoje é domingo.”
Teria sido mesmo ideia dela?, pensei. Talvez tenha sido ele a sugerir aquilo. É claro que podia muito bem ter-me dito qualquer coisa. Teria preferido que fosse Toshiko a dizê-lo em seu lugar, ou seria pura e simplesmente ela a tentar confirmar as suas suspeitas?... Subitamente, vi-o no nosso hotel de Osaka, ansioso à minha espera, naquele preciso momento. E se ele estivesse mesmo lá? – pensei, mas recompus-me imediatamente. Afinal de contas, isso era altamente improvável. Porém, a ideia começou a perseguir-me. No entanto, era evidente que não tinha tempo de ir a Osaka. Não podia estar tanto tempo fora, pelo menos até domingo próximo.
Porém, tinha outra ideia em mente, por isso disse a Toshiko que ia buscar algumas coisas ao mercado de Nishiki. “Estou de volta daqui a uma hora”, afirmei. Eram três horas quando saí de casa.
Apanhei um táxi e segui logo para a Rua Nishiki. Primeiro, para justificar a viagem, comprei bolos de glúten de trigo, coalhada de feijão tostado e alguns legumes. A seguir, percorri o Teramachi até Sanjo, e parei na papelaria para comprar dez folhas grandes de papel de arroz e uma folha de cartolina. Mandei cortá-los do tamanho do meu diário e mandei embrulhar tudo; depois coloquei-os no meu cesto das compras, por baixo dos legumes. Fui apanhar um táxi à Rua Kawaramachi – mas não posso esquecer-me de referir que lhe telefonei do mercado.
“Não, não tencionava sair durante todo o dia”, disse-me ele. Afirmou-o com ar hesitante, como se pensasse que eu podia estar a sugerir que nos encontrássemos. No entanto, limitámo-nos a conversar durante alguns minutos.
Cheguei a casa pouco antes das quatro (tinha estado fora pouco mais de uma hora), escondi o embrulho de papel de arroz por trás do suporte dos guarda-chuvas e levei o cesto das compras a Baya, que estava na cozinha. O meu marido ainda parecia estar a dormir, embora não ressonasse.
O que me tinha incomodado fora aquela história do meu diário. Por que motivo teria ele surgido com aquilo? Ter-se-ia esquecido, devido ao seu estado de confusão mental, que não era suposto saber da sua existência? Ou será que estava a dizer “Penso que não há razão para continuarmos a fingir”? E quando tentei esquivar-me dizendo-lhe que nunca tive nenhum diário, será que aquele sorriso estranho queria dizer “Pára de te fazeres de inocente”? Seja como for, é evidente que ele queria saber se tenho escrito o meu diário. A seguir vai querer lê-lo. Como já não pode lê-lo nas minhas costas, começou a sugerir que queria ter a minha autorização. Tenho de estar pronta para quando ele mo pedir abertamente.
Quanto aos registos até ao dia dezasseis deste mês, estou disposta a mostrar-lhos quando ele quiser. Mas ele deve saber que o diário não acaba aí. Dir-lhe-ei: “Como andas a ler o meu diário em segredo, é escusado continuar a escondê-lo. Podes lê-lo à vontade, embora de pouco te adiante. Como hás-de ver, acaba no dia dezasseis. Desde então, tenho estado demasiado ocupada para escrever o diário – embora também não tenha feito nada que merecesse a pena referir.”
Porém, terei de prová-lo mostrando-lhe que só existem páginas vazias a partir do dia dezasseis. Com o meu novo papel de arroz, posso dividir o caderno nesse ponto, acrescentar o número suficiente de folhas em branco e voltar a uni-lo em dois volumes.
Não dormi a minha sesta, pelo que fui até lá acima descansar durante cerca de uma hora. Quando voltei para baixo, às seis e meia, trouxe o diário e pu-lo na gaveta do armário da sala. Toshiko foi-se embora a seguir ao jantar, às oito. Às dez, mandei a menina Koike subir. Às onze ouvi passos no jardim.  

In «A chave», ficção de Junichirō Tanizaki (tradução da versão inglesa por Maria Augusta Júdice), colecção «Outras estórias», Editorial Teorema, Lisboa, Fevereiro de 2003 (1.ª edição).

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