sexta-feira, 15 de novembro de 2013

[MATSUSHIMA], por Matsuo Bashô

Imagem retirada de www.city.sendai.jp 
Já é um lugar-comum dizê-lo: a paisagem de Matsushima é a mais formosa do Japão. Não é inferior às de Doteiko e Seiko na China. O mar penetra a partir de sudeste numa baía de aproximadamente três «ri» [um «ri» equivale a 3,92 km], transbordante como o rio Sekiko da China. É impossível contar o número das ilhas: uma quase toca o céu, outra apresenta-se estendida, a boca debaixo das ondas; aquela parece desdobrar-se e, a mais afastada, divide-se em três; algumas, vistas da direita parecem ser uma só e vistas do lado contrário multiplicam-se. Há umas que parecem levar um menino às costas; outras é como se o levassem ao colo, algumas parecem mulheres acariciando o seu filho ou o seu neto. O verde dos pinheiros é sombrio e o vento salgado dobra sem cessar as suas ramagens, de maneira que as suas linhas curvas parecem obra de um jardineiro. A cena tem a fascinação misteriosa de um rosto formoso.
Imagem retirada de http://www.math.is.tohoku.ac.jp
Dizem que esta paisagem foi criada pelo Deus da Montanha, na época sagrada. Nem pincel de pintor, nem pena de poeta podem descrever as maravilhas do céu.



In «O caminho estreito para o longínquo Norte» (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô (numa versão de Jorge de Sousa Braga – que a dedica à memória de Venceslau de Morais; com capa de João Bicker), Fenda Edições, Lisboa, Julho de 1995 (2.ª edição).

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