sexta-feira, 15 de novembro de 2013

[ao ler um prefácio de Gilberto Freyre], registo diarístico de Miguel Torga

Gilberto Freyre – Imagem retirada de http://sotaquesbrasilportugal.blogspot.pt
Coimbra, 3 de Março de 1943 – Parece não ter remédio o complicado problema da guerra de gerações. Ainda hoje, ao ler um prefácio de Gilberto Freyre num livro de crítica de poesia, verifiquei isso mesmo. À camada literária que chegou depois da sua, chama, nada mais, nada menos, o claro espírito de Casa-Grande & Senzala «numa espécie de sexta coluna sinistra!»
Ora, não é impensadamente, nem por caturrice lamentável de velho, que uma tal acusação sai da pena do penetrante ensaísta brasileiro. Nem o autor de Nordeste tem cem anos, nem coisas duma gravidade assim se dizem por desfastio. À violência da expressão há-de por força corresponder, na ideia de quem a emprega, uma realidade dolorosa. Deve mesmo existir no escritor, consciente ou inconscientemente, o propósito de estigmatizar com palavras de fogo o que há de irremediável nessa desgraça que vem desde que o mundo é mundo.
«Sexta coluna sinistra», e eu estou a ver, em Portugal, Castilho ter insónias por causa dela, Camilo escrever romances realistas por causa dela, e o próprio Herculano imunizar-se prudentemente contra ela. Estou a ver, por toda a parte e em todos os tempos, de um lado, uns pacatos senhores esfalfados de prosa e verso, aterrorizados diante da obra realizada, com a ideia de que tudo aquilo vai ser atirado ao ar por meia dúzia de bombas de pataco; do outro, uns mocinhos imberbes, com toda uma vida diante para se convencerem que isto de escrever um autêntico livro é tão difícil como a celebrada passagem do camelo pelo rabo da agulha, – sem ideias concretas, sem a mão assente, sem o mistério do ofício sequer pressentido –, importantes, infalíveis, a assobiar aos velhotes como quem assobia a um cão.
Vista de fora, a tragédia chega a fazer rir. Mas, olhada de dentro, talvez não haja nada de mais doloroso e triste. Que seja necessário ou fatal semelhante duelo na história das artes, é realmente de meter pena. Porque, embora contínuo, real e objectivamente verificável, não parece que o fenómeno tenha uma razão de ser transcendente, apoiada em fundamentos lógicos. Se até certo ponto se compreende que Castilho fosse apupado por um Antero, já não era de maneira nenhuma razoável que Camilo recebesse as ironias de um Eça.
É evidente que no espólio de qualquer época há sempre muito que condenar, corrigir, deitar fora, e até combater. Mas, na pressa com que vem, a rapaziada nova esquece que igual auto-de-fé há-de queimar no futuro parte da produção dos inquisidores de agora. Bem sabemos que no início de uma jornada, de mais a mais árdua como a sua criação, todo o entusiasmo é pouco e toda a cegueira é pouca. Mas por que hão-de ser sempre o entusiasmo e a cegueira contra os que a lei do tempo encaneceu? Boa ou má, a obra que realizaram foi um esforço e um exemplo. Na maioria dos casos, foi nela, até, que os mesmos atacantes mataram a primeira sede. De maneira que não se chega a compreender a causa de tanta irreverência e muitas vezes tanto ódio. Embora a imagem seja um bocado crua, depois de uma meditação serena sobre certas injustiças, é-se levado a pensar que há na base dessa feroz hostilidade aos velhos qualquer coisa de semelhante ao que acontece com aqueles bichos que, apenas fecundados pelo companheiro, se apressam a matá-lo e a devorá-lo. É como se cada geração, mal acabasse de sorver da anterior todo o sumo vital, indignada por não encontrar lá mais com que nutrir a insaciedade, passasse a odiar o favo que chupou, onde agora somente vê cera morta.
Por outro lado, é um fenómeno quase miraculoso encontrar no passado duma literatura um autor idoso com autêntica compreensão pela seiva naturalmente um pouco irresponsável de qualquer principiante. Parece que a idade, a cultura, a maturidade, o incapacitam de se lembrar sequer dos bons tempos em que também ele era a mesma ânsia e obstinação. A compostura clássica que necessariamente atingiu impossibilita-o de ver um outro futuro clássico no jovem e desconexo companheiro. Uma obra é uma experiência, muito dolorosa e muito profunda, tornada expressão. E nada mais difícil de conseguir do que o justo equilíbrio entre o que se quer dizer e o que se diz. Por isso, quando ao cabo do caminho, e com a esquadria das emoções aprumada, um artista realizado olha um moço só a emparedar seixos toscos, como poderá entendê-lo?
Há ainda a mensagem de cada um. Independentemente da limpidez formal, que, a seu modo, todo o criador consegue mais cedo ou mais tarde, temos de considerar também os valores que cada época traz, e de que o artista é, por condição, porta-bandeira. Anteontem amava-se romanticamente; hoje, existencialmente; amanhã... E assim por diante. A ubiquidade, porém, pertence a Deus Nosso Senhor. É quase uma impossibilidade orgânica, quando se lutou trinta ou quarenta anos por uma verdade, aceitar de mão beijada que alguém venha dizer-nos que a verdade verdadeira é a novíssima, a que esse alguém traz no bolso. As ideias gerais de qualquer período são, como coisa em si, em tudo respeitáveis e legítimas. São as ideias de então, e nada autoriza a dizer em absoluto que o pensamento do século XVII superava o do século XVII, ou vice-versa. Como já se usaram saias de balão, usam-se agora outras modas. Ora as saias de balão, em relação ao tempo respectivo, eram perfeitamente correctas e de bom gosto. Mas basta a gente não ver cada coisa integrada no clima que a motivou, para que a sua aparência se torne ridícula e detestável. E por isso tão horrível é para uma senhora que usa saia rodada uma saia travadinha, como o contrário. É evidente que semelhantes bizantinices nada dizem a uma dama da Renascença, imunizada como está do contingente pela consumação dos anos. Mas poderá quem respira ainda sublimar-se a ponto de perder o pé na vida? Certo que não. Todos nós temos visto homens de noventa anos morrer aos vivas a determinada Patuleia que os faz vibrar. A dita Patuleia já no cisco da História, e eles ainda com aquele sonho no coração!
E resta finalmente a malfadada meretriz, às graças da qual poucos escapam: – a vaidade. A exacta glória é a póstuma, a que nenhum dente rói, e que só desce sobre um nome depois da ressurreição intemporal do seu possuidor. Todos sabemos que a imortalidade do poeta lhe nasce das cinzas. Mas o artista enquanto vive é homem. Rege-o tanto uma lei de cima como uma lei de baixo. E por isso, pela transitória fama entre meia dúzia de condicionados contemporâneos, é capaz de matar um irmão. Velhos e novos aprestam nesta triste luta as mesmas armas e as mesmas unhas. Os velhos querem guardar os loiros; os novos querem tirar-lhos das mãos. E sem haver a mais pequena esperança de paz entre as duas forças. É da própria natureza dos contendores que nenhum ceda. A sofreguidão é tanto da fisiologia senil, como da infantil...

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).

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