quarta-feira, 13 de novembro de 2013

[As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem retirada de www.picstopin.com
Coimbra, 11 de Novembro de 1942 – Quando me ponho a pensar no homem que depois de Cervantes e de Camões nos levou à Europa com mais firmeza e sentido, ocorre-me sempre o nome cada vez mais novo de Unamuno. É claro que não esqueço o Costa do Ideário español, o Antero das Causas da decadência dos povos peninsulares, e o Oliveira Martins da História da Civilização Ibérica. Mas volto ao de Bilbau. É que, para mim, o grande erro de quantos, depois de terem a consciência do nosso caso, quiseram fazer da Ibéria uma terra da Europa, foi tentarem semear neste tórrido chão peninsular frias ideias doutros paralelos. Só o comentador de D. Quixote (e Ganivet, embora com menos afinco) teve o génio de entender o problema a fundo, e de ver em que justa medida a esponja, sem perder o justo orgulho da origem, poderia sorver o orvalho doutra cultura. Explicar ao mundo a natureza da nossa língua, o caminho da nossa história, a terrosidade do nosso chão, a seriedade da nossa paisagem, a intimidade da nossa literatura, a grandeza dos nossos santos, a ferocidade dos nossos heróis, a humanidade dos nossos ladrões e o ingénuo charlatanismo dos nossos políticos, é certamente a maneira mais honrada de conversar no soalheiro universal, e de motivar a compreensão dos ouvidos alheios. As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra. Por mais que se diga, o eucalipto será sempre exótico na paisagem portuguesa. Exprimir agonicamente o drama dum específico temperamento religioso, é, de facto, levar à Dinamarca de Kierkegaard a mensagem de uma certa inquietação metafísica, e receber em troca a mensagem doutra inquietação igualmente patética. Falar do sentimento trágico da vida, perscrutando a nossa alma mística e solitária, é dizer a Pascal quem somos, e ouvir de Pascal quem é. Ora, é numa fraternidade assim de confissões e confidências que a cultura se faz. Quer dizer: só depois de bem avaliar as suas características particulares e de as caldear a seguir no grande lume universal, pode um qualquer ser ao mesmo tempo cidadão de Trás-os-Montes e cidadão do mundo. Foi o que Unamuno se esforçou por nos ensinar e ensinar à Europa. Recusando-se, activamente, a africanizar a Ibéria, ou americanizá-la, ou a europeizá-la pura e simplesmente, tentando, pelo contrário, arrancar da nossa intra-história a nossa verdadeira significação continental, conseguiu esta maravilha: que a Europa tivesse consciência de nós, e nós dela. E é ver como apareceram logo os Cassous do lado de lá e os Ortegas do lado de cá. Dizia-me ontem um amigo francês esta tristeza: – de Camilo em diante, parece que os escritores portugueses têm as raízes fora de Portugal! E é verdade. Por desgraça, somos todos, em mísero, Anatoles, Prousts, Morgans, Valérys, ou outros igualmente grandes e igualmente alheios. Daqui, deste avaro torrão, e com a consciência profunda dele, é que ninguém quer ser. E aí temos o resultado: não existir europeu que se interesse seriamente pela nossa literatura contemporânea. – Para quê? – perguntava-me ironicamente o mesmo sujeito. E dava-me a resposta: – Bem vê, temos lá os originais...
Mas ninguém é capaz de fazer compreender estas singelas coisas a uns pobres de Cristo que para aí fazem prosa e verso. Enfrenizam-se na asneira, e debilitam ainda mais as virtudes particulares que, pelo que diz respeito propriamente a Portugal, embora brandas, são as que temos para nos salvar ou perder.
Não. Tudo está em aprender e seguir a grande lição do velho mocho de Salamanca. Fincar primeiro, amorosa e obstinadamente, os pés na terra esbraseada da Ibéria; e, com ela na sensibilidade e no entendimento, olhar então, num movimento de humana e natural curiosidade, para o que se passa do outro lado do muro.

In «Diário» (2.º volume), de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1977 (4.ª edição).

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