quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TEMPO, poema de Miguel Torga



















Tempo – definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
– O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo…
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta de uma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

(in, «Cântico do Homem», de Miguel Torga, edição do autor, Coimbra, Janeiro de 1974, 4.ª edição)

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