terça-feira, 6 de novembro de 2012

«SOBRE O MEU ANIVERSÁRIO - 20», poema de Rabindranath Tagore

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Hoje imagino as palavras de inúmeras
Linguagens subitamente livres –
Depois de uma longa clausura
Na fortaleza da gramática, de repente revoltada,
Enlouquecida pelo cunho
Do obsoleto poder militar.
Elas ultrapassaram os constrangimentos da frase
Para procurar a livre expressão num mundo sem inteligência,
Quebrando as cadeias do bom senso, do sarcasmo
E do ridículo do decoro literário.
Assim liberta as suas ridículas
Posturas e os seus gritos apelam unicamente ao ouvido.
Elas dizem, «Nós que nascemos da tempestuosa sintonia
Da primeira exalação da terra
Entrámos em nós próprias logo que o sangue palpitou
Levando a negligente vitalidade do homem a transformar-se em dança
[na sua garganta.
Aumentámos a sua voz infantil com o balbuciar
Do primeiro poema do mundo, com as primeiras palavras
Infantis da existência. Somos parentes das correntes
Selvagens que se despenham das montanhas para anunciar
O mês de Sraban: trazemos à morada do homem
Os encantos da natureza –»
O festivo som das folhas sussurrando nas florestas,
O som que mede o ritmo das tempestades próximas,
O grande som do fim da noite quando rompe o dia –
Destes campos de som o homem capturou palavras, refreando-as
[como a um
Garanhão em complexos laços de ordem
Para o impedir de levar as suas mensagens às longínquas terras do futuro.
Ao ler palavras reprimidas e controladas
O homem apressou
O passo dos lentos relógios do tempo:
A velocidade da sua razão atravessou os blocos da matéria,
Explorando recalcitrantes mistérios;
Com exércitos de palavras
Desenhadas nas linhas de batalha resiste ao perpétuo assalto da
[imbecilidade.
Mas às vezes elas escapam-se como ladrões para o coração da fantasia,
Flutuando nas marés-baixas
Do sono, sem barreiras,
Transformando qualquer espécie de naufrágio e despojos em métrica.
A partir daí, a mente errante dá forma
Às criações artísticas
De um género que não se conforma com um Universo
Ordenado – cujos laços são ténues, lassos, arbitrários,
Como uma dúzia de cães à bulha,
Agarrando-se ao pescoço uns dos outros sem propósito nem
Sentido:
Mordem-se –
Gritam e ladram muito alto,
Mas as suas dentadas e gritos não trazem nenhuma verdadeira
[aportação à animosidade,
A sua violência é bombástica, a sua fúria oca.
Na minha mente imagino palavras com pouco sentido,
Hordas das quais correm furiosamente todo o dia,
Como se no céu houvesse inúmeras sílabas disparatadas em plena
[erupção –
Horselum, bridelum, ridelum, no interior da refrega.

In «Poesia», de Rabindranath Tagore (com selecção e tradução de José Agostinho Baptista), 
Assírio & Alvim, Maio 2011, 2.ª edição.
……………………………

TISHMA canta TAGORE (Bhalobashi bhalobashi  Bangla canção):
http://www.youtube.com/watch?v=430nsMAsVHs

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