quinta-feira, 15 de novembro de 2012

«ÁGUA», poema de Gabriela Mistral

Foto retirada de http://www.poesiaspoemaseversos.com.br


















Alguns países eu recordo
como recordo a minha infância.
Países onde há rio ou mar,
pastagens, várzeas, tanta água.
Aldeia minha sobre o Ródano,
entregue ao rio e às cigarras;
Antilha em palmas verdinegras
que do seu mar ainda se chama;
em Portofino a fraga lígure:
mar italiano! mar italiano!

A lugares secos me trouxeram,
terras-Agar, terras sem água;
Saras vermelhos, Saras brancos,
onde pecaram outras raças,
nesses cruéis, rubros pecados
pelas argilas relembrados;
que não nasceram como crias
com as suas feridas gordurosas,
quando as escuto sem ruído,
sempre que as cruzo, sem olhar.

Quero voltar a terras jovens;
levem-me a um suave país das águas.
Que em grandes prados envelheça
e traga ao rio as minhas fábulas.
Que a minha mãe seja uma fonte
perto de mim durante a sesta
e em jarras desça de um penhasco
uma água doce, aguda e áspera.
Que então me vença e me suspenda
a água acérrima e gelada.
Que parta o copo e que ao bebê-la
me torne jovens as entranhas!

In «Antologia Poética», antologia portuguesa de Gabriela Mistral (com selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral), 
Editorial Teorema, Lisboa, 2002 (1.ª edição).

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