quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Paracelso e os «traços benéficos da influência de Erasmo e de Frobénio», segundo Fernando Namora

Johann Froben, impressor e editor suíço 
(imagem encontrada em https://fr.wikipedia.org)
Com a Renascença nasce uma nobre profissão: a de impressor. As obras, até aí raras e inacessíveis, cuja expansão, forçosamente minguada, dependia dos copistas, que, além de morosos, algumas vezes as abastardavam, passam a difundir-se a baixo preço, escapando ao privilégio de certas classes, estabelecendo um traço de união entre os que se isolam para esconder a sua indocilidade aos severos preconceitos. Os escritos dos mestres gregos propagam-se, finalmente, no seu texto original, numa pureza que, com frequência, havia sido viciada pelos comentadores, a crítica afirma-se, a discussão é favorecida. Em Veneza, Basileia, Lião, Francoforte e Paris, enquanto as artes se libertam das convenções místicas, restaurando o culto da beleza corporal, e os navegadores, apoiados numa nova concepção da arte náutica e do desenho dos navios, desvendam regiões ignoradas, alargando os domínios da inteligência, e os intelectuais universalizam as suas ideias, nessas cidades abrem-se oficinas de impressão, fundadas e orientadas por espíritos esclarecidos, que fazem ressuscitar Platão, traduzir Aristóteles e Teofrasto, que levam a todo o mundo os escritos clássicos e dos que preparam uma fulgurosa jornada da história da humanidade. O poder deste instrumento de convívio e disseminação da cultura pode medir-se pela resistência que lhe é oposta, pelo rancor dos esbirros que queimam as obras impressas em fogueiras de intolerância e de pânico.
Um desses construtores do novo mundo que quer conhecer-se e emancipar-se através do livro é Frobénio, célebre editor de Basileia, divulgador do humanista Erasmo. Ele é um dos que sentem a necessidade de mudança e de pensamento inconformista, de expansão de ideias novas e de libertação das faculdades criadoras do homem, amodorradas durante a Idade Média, ao mesmo tempo que se revaloriza o saber clássico, esteio dessa mesma inquietude.
Mas Frobénio adoece gravemente, com uma ferida infectada do pé, que depressa lhe inflama todo o membro e lhe envenena o organismo. Os médicos terão de amputar-lhe a perna, embora se receie que essa mutilação não baste para travar a marcha da terrível gangrena. No povo, entretanto, fala-se de um homem estranho, chamado Paracelso, meio demónio, meio louco, que serena os atormentados, cura os sifilíticos e profere violentos anátemas contra os médicos estiolados numa ciência escolástica, nos erros dos mestres do passado, esquecidos das luminosas lições da natureza. É um homem truculento e imprevisto, boémio, de hábitos grosseiros, curtindo bebedeiras em cima de uma enxerga, para a qual se atira, a desoras, mesmo vestido, embora pouco depois, alucinado, se levante brandindo uma espada contra imaginários opositores, um homem que abençoado pelos humildes, a quem alivia das moléstias, e escarnecido pelos doutores, percorre aldeias e cidades apregoando uma revolucionária medicina. Apóstolo ou herege, lunático ou predestinado, os seus dotes de médico são invulgares.
Erasmo, desorientado com a doença do amigo, decide confiar nesse discutido reformador da arte médica, e roga-lhe que visite Frobénio. Paracelso observa a perna em decomposição, os indecisos médicos que se agrupam em redor do enfermo, e grita-lhes:
– Sois vós, caçadores de piolhos, que permitis que este organismo apodreça?
Erasmo, aturdido, ainda procura sofrear o indecoroso aventureiro, mas baldadamente. As convenções, o bom senso, a cortesia hipócrita, não servem a Paracelso. Os seus arrebatamentos vão sempre até ao fim. Por isso, insiste:
– Haveis deixado gangrenar esta perna e, para vergonha vossa, já não sabeis propor outra coisa do que o cutelo do açougueiro? Curo-te eu, Frobénio. Expulsa estes farsantes de tua casa?
E Frobénio, na verdade, curou-se. Paracelso, mercê deste êxito, conquista dois firmes partidários, que logo procuram persuadir os magistrados a acolherem o insubmisso médico e a nomearem-no, apesar dos seus duvidosos títulos e verdura de anos, prelector da Universidade. Frobénio, além disso, publica-lhe algumas obras e tanto ele como Erasmo tentam impô-lo à consideração da gente ilustrada, embora reconheçam os riscos a que se expõem. Paracelso é um irreverente, um áspero antagonista, e para todos se mostra agressivo. Uma nova doutrina, para florescer, não pode contemporizar com os que pretendem refreá-la, necessita do fogo da luta da exaltação. Paracelso não chega a Basileia para cortejar uma situação rendosa e confortável, mas sim para demolir. Que não lhe exigissem, pois, boas maneiras. Os seus dois amigos compreendiam estas verdades, também eles pertenciam ao movimento que se propunha desembaraçar a cultura dos ídolos e dos dogmas, e, consequentemente, não se amofinavam com as bizarrias de Paracelso. Em certas obras deste, assinalam-se traços benéficos da influência de Erasmo e de Frobénio. (…)

In «Deuses e Demónios da Medicina – biografias romanceadas» (primeiro volume), de Fernando Namora, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1989 (7.ª edição).

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