sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

[sem esquecer o seu aviário à Edgar Poe]: a imaginação de Carlos de Oliveira segundo Eduardo Lourenço

Imagem retirada de http://docecomoachuva.blogspot.pt/

Sem insistir em paralelos ou aproximações que são sempre excessivos, há um lado goyesco na imaginação de Carlos de Oliveira, mas de um goyesco sem sátira, nem verdadeiro grotesco. Não é temerário afirmar que o lado orgânico da existência, sobretudo o das formas tradicionalmente repulsivas, digamos o lado pré-histórico da vida, apavora o poeta aparentemente racionalista e optimista de Terra de Harmonia.
Carlos de Oliveira escreveu, no interior do horizonte neo-realista, a poesia mais embebida do horror físico e metafísico da morte que aí se encontra. Mas superior a esse horror (e fascinação) é o que se liga às «asas de morcego», às «toupeiras», aos «fetos», sem esquecer o seu aviário à Edgar Poe de mochos, de corvos, de águias fatais, arsenal mítico dos seus pavores infantis transfigurados em lobisomens, em bruxas, a que muito neo-romanticamente dá emprego e força na sua poesia e nos seus romances.

In «Sentido e forma da poesia neo-realista», ensaio de Eduardo Lourenço, Gradiva, Lisboa, Outubro de 2007 (1.ª edição).

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