quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

[Quantos moinhos de vento há por Portugal adiante a pedir a mesma investida que nos de Espanha praticou o Cavaleiro da Triste Figura!], registo diarístico de Miguel Torga

Imagem encontrada em www.vivaviver.com.br    

La Carolina, Hotel Cervantes, 20 de Abril de 1951Quis o acaso que fosse debaixo da sombra tutelar do grande nome de D. Miguel de Saavedra que eu passasse esta noite, antes de penetrar nas planuras que foram, por assim dizer, o pergaminho telúrico onde escreveu a sua história imortal. Uma espécie de velada literária, que humildemente agradeço aos deuses.
A avaliar pelo que já se adivinha, não vou certamente encontrar nada que se pareça com um ambiente inteiramente característico, inconfundível, específico, daquela desmedida aventura. Estradas intermináveis, solidão e secura, são o pão-nosso de cada dia nesta Ibéria de Deus. O génio é que tem o dom de tornar flagrantes os cenários das suas criações, iluminando-lhes de tal maneira o exterior com a luz interior da acção, que a obra acaba por nos parecer uma realidade apenas possível no palco onde nos foi mostrada.
No céu que seja, um odre de vinho, furado, é um odre de vinho a esguichar. Mas se for a estocada do sublime louco que o atravesse numa hora de cegueira combativa, então estamos numa taberna concreta descrita a páginas tantas. Quantos moinhos de vento há por Portugal adiante a pedir a mesma investida que nos de Espanha praticou o Cavaleiro da Triste Figura! Tivesse o nosso Frei de Luís de Sousa, em vez de gramática, imaginação, e a força alada destas velas remendadas pertenceria às que em Santarém empurram penosamente a dura mó dum pão quotidiano.
O destino, porém, determinou que fosse a dois passos de aqui que a pena inspirada e fantasista dum homem fizesse a maior sinalização geodésica de que há memória. «En un lugar de la Mancha...» Não conheço livro nenhum tão nitidamente plantado. Só a Bíblia tem um princípio com igual marcação. Mas o verbo do Génesis é Terra no D. Quixote. Terra de Castela a Nova, seca, calcinada, onde as patas do Rocinante ainda gora erguem poeira.
Quando se pensa no pano de fundo das grandes criações da humanidade, não é positivamente a sua cor local que nos convence. Embora referenciadas, a verdade é que qualquer paisagem lhes serve. Cervantes, esse, com medo talvez de que o grande duelo do espírito que ia fazer travar entre o fidalgo e o seu escudeiro pudesse transformar-se numa justa por demais abstracta, teve o cuidado de assinalar devidamente no mapa do mundo o terreiro preciso onde os comparsas haviam de se movimentar. E, pelos séculos dos séculos, peregrinos como eu virão encaixilhar na desolação dos horizontes intermináveis que eu ainda mal descortino o perfil do magro sonhador. A nascer dum chão inóspito e a rasgar com a ponta o cetim do céu vazio, a sua lança entende-se melhor. É uma espécie de açucena de ferro e pau, alucinada entre a maldade dos homens e a indiferença de Deus.

In «Diário (6.º volume)», de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, 1978 (3.ª edição).

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