sexta-feira, 17 de maio de 2013

À PROCURA DE UMA EXPLICAÇÃO

António Damásio – Foto retirada de http://cienciaemportugal.blogspot.pt/
[…] Primeiro, chegar a uma decisão sobre um problema pessoal típico, colocado em ambiente social, que é complexo e cujo resultado final é incerto, requer tanto o amplo conhecimento de generalidades como estratégias de raciocínio que operem sobre esse conhecimento. O conhecimento geral inclui factos sobre objetos, pessoas e situações do mundo exterior. Mas como as decisões pessoais e sociais se encontram inextricavelmente ligadas à sobrevivência, esse conhecimento inclui também factos e mecanismos relacionados com a regulação do organismo como um todo. As estratégias de raciocínio giram à volta de objetivos, opções de ação, previsões de resultados futuros e planos para a implementação de objetivos em diversas escalas de tempo.
Segundo, os processos da emoção e dos sentimentos fazem parte integrante da maquinaria neural para a regulação biológica, cujo cerne é constituído por controlos homeostáticos, impulsos e instintos.
Terceiro, devido ao design do cérebro, o conhecimento geral necessário para as decisões depende de vários sistemas localizados, não apenas numa única região mas em regiões cerebrais relativamente separadas. Uma grande parte de tal conhecimento é expressa sob a forma de imagens em diversos locais do cérebro. Embora tenhamos a ilusão de que tudo se reúne num único teatro anatómico, dados recentes sugerem que tal não é o caso. É provável que a ligação entre as diferentes partes da mente provenha da relativa sincronia de actividade em locais diferentes.
Quarto, visto o conhecimento só poder ser recuperado, de forma distribuída e parcelar, a partir de diversos locais em vários sistemas paralelos, a operação das estratégias de raciocínio requer a manutenção ativa da representação de miríades de factos numa ampla exposição paralela durante um período de tempo de vários segundos. Por outras palavras, as imagens sobre as quais nós raciocinamos (imagens de objetos específicos, ações e esquemas relacionais; imagens de palavras que ajudam a tudo traduzir sob a forma de linguagem) não só devem estar em realce – algo que é obtido pela atenção – como devem também permanecer ativas na mente – algo que é realizado pela memória de trabalho.

In «O Erro de Descartes – Emoção, razão e cérebro humano» (com o novo prefácio «Regresso ao Erro de Descartes»), de António Damásio (adaptado para a língua portuguesa por António Damásio, com revisão de Pedro Ernesto Ferreira), Temas e Debates (Círculo de Leitores), Lisboa, Setembro de 2011 (esta edição segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa).

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