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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Excerto de «A história de Julieta, a Santa da Baviera», de Gonçalo M. Tavares

Foto encontrada em http://veja.abril.com.br

«Todas as coisas se trocam pelo fogo e o fogo troca-se por todas; como o ouro se troca pelas mercadorias e as mercadorias pelo ouro», lembrava-se ele de ter lido nos escritos do sábio. Confundida, assim, a morte com a vida, ele matava como o agricultor semeia. Roubava ouro, deixava-lhes o fogo. Como todas as más cópias, destruía com instrumentos que o sábio utilizara para construir.
Romeu da Baviera, o homem que se procurava a si mesmo, ambicioso; pretendente a sábio; seguidor de Heraclito, tornou-se conhecido como o duque do Fogo; o homem que queima até o que já não consegue fugir. Conquistou tantas cidades como ódios. Matou tantos homens quantos os que deixou com vontade de o matar.
Um dia, porém, o mundo mudou: o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento, é certo, precisará dele. Romeu da Baviera não crescera nessa sabedoria capaz de sair do presente: havia gasto já todas as alegrias. Agora era o momento de recordar as palavras do Evangelho de São Mateus (24.7): «Haverá fome e terramotos em vários lugares.
Mas tudo isto é apenas o começo das dores.» Para Romeu começara, então, o tempo das dores.
Atacado pelo exército do imperador Conrado III, rapidamente perdeu terreno e homens.
O resto, em parte, é conhecido. Conta-o Montaigne num dos seus ensaios. Movido pelo ódio, embora inda não totalmente dominado por ele, o imperador Conrado III, entrando na cidade de Baviera, consentiu em deixar fugir as mulheres. Apenas.
Que elas saíssem da cidade a pé, foi a sua imposição; e que levassem só o que pudessem carregar com os braços. Tudo o que ficasse para trás seria arrasado pelo fogo (essa a sua vingança): incluindo os homens; incluindo Romeu.
A parte que conta Montaigne comove: as mulheres, com a força que só o coração e o desespero conseguem, pegaram em filhos e maridos e carregaram-nos às costas, livrando-os da morte.
Montaigne esqueceu-se (não terá visto): quando Romeu, o cruel duque da Baviera, se viu deixado para trás, abandonado por todas as mulheres que ao longo da vida abandonara, teve um instante em que de tudo se arrependeu como acontece a todos os que se vêem frente à morte. De imediato, no entanto, foi surpreendido pela terra, pelas mulheres. Uma mão feminina com rugas: era Julieta. Como nele, trinta anos nela haviam passado. Era agora velha, curvada, fraca. No entanto, carregou-o às costas. Corajosa. Ainda Apaixonada.
Montaigne fala de um perdão por parte do imperador, impressionado com a exibição de força e coração das mulheres da Baviera.
Sabemos, porém, que não foi bem assim. Deixou fugir todos os homens que as suas mulheres carregaram aos ombros, é verdade, excepto Romeu.
Julieta também ficou.
O imperador não era falador, era guerreiro, mas disse:
– Só se pode odiar a mulher que ama o inimigo.
Juntou, assim, os dois, no centro da cidade, amarrados por cordas um ao outro.
Ele próprio, o imperador Conrado III, acendeu o fogo. Dizem que com a mão esquerda, a mão que odeia.
O fim da história é evidente; não era já tempo dos milagres: Romeu e Julieta da Baviera morreram.

In «Histórias Falsas» (breves narrativas; desvios ficcionais na história da filosofia antiga), de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho, SA (uma editora do grupo Leya), Alfragide, 2014 (7.ª edição).

«Dorme», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em https://www.dicio.com.br

podes dormir
dormir o dia todo
todos os dias
pelos dias

podes ir dormir
dormir
ignorando emoções
as lágrimas

continua a dormir
a dormir
para acordares
somente
quando sentires
a festa da morte
na tua face
                    até lá

segue a dormir
no desconhecido
respirando
tranquilamente

vá, dorme

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 2», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Foto encontrada em http://www.conexaolusofona.org

cordas pregos pregos
e cordas barulhos mosquitos
varejeiras maus cheiros
sacos plástico ao vento

pregos cordas e cordas
borrachas farrapos antenas
latas de tinta barrotes
de madeira sujos cimentos

pregos pregos mais cordas
habitações sociais pocilgas
escaravelhos latas de salsichas
carreiros cardos e pregos

cordas cordas fios de nylon
folhas de jornal preservativo
isqueiro partido caracóis
uma canção abandonada

pregos cordas e cardos
o sol queimando memórias
câmaras de ar esqueletos

                      esqueletos
a obra-prima da morte

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

«Arrabalde monótono 1», poema de Jorge Aguiar Oliveira

Imagem encontrada em http://reencontros-dinamc.blogspot.pt

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
cacos de vidro papelão
fios de corda dois passos

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
saco de plástico cavilha
madeiras e mais três

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
sola de sapato alumínio
lata de ferrugem passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
ossos de ave caracóis
colher passos à deriva

malmequeres papoilas
papoilas malmequeres
resto de janela varejeiras
brilhos sob um passo

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
folha de jornal oleado
encalhado na miséria

papoilas malmequeres
malmequeres papoilas
frente ao horizonte
mortos de pé sobre pés

In «Ranço», de Jorge Aguiar Oliveira, Colecção «Azulcobalto» – Poesia (n.º 19), Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, Março de 2014 (1.ª edição).

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

«O sono do João», poema de António Nobre

Foto encontrada em http://ptjornal.com

O João dorme... (Ó Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!

Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

O João dorme, o inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe uma canção,
Os versos do teu Irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar...

E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar...

                                              Paris, 1891

In «Só», de António Nobre (revisão de Paulo Moreiras), «Biblioteca Metas Curriculares» (colecção composta por seis livros), Leya, SA, Alfragide, 2016 (edição especial de distribuição exclusiva pela Cofina Media, SA – nas bancas com o «Correio da Manhã», às sextas-feiras, de 7/10/2016 a 11/11/2016).
………………………………

VER E OUVIR:
«O sono do João» - com música de Sérgio Azevedo
Obra contemporânea interpretada pelos coros Voximix e Voximini no 2.º Concerto Final do Conservatório Regional de Castelo Branco, sob a direcção de Armanda Patrício e acompanhados ao piano por Nuno Miguel Freitas (em 12.06.2013).
LINK: https://www.youtube.com/watch?v=UGcYJj-rglU

Excerto do conto «O sorriso perturbador», de Carlos Tê

Foto encontrada em http://centenario.up.pt

Convenceu o editor a devolver-lhe a coluna, desta vez para escrever sobre artes plásticas. Teve de abdicar da avença ridícula que lhe pagavam pela colaboração. Reflectindo o mundo, o jornal estava cada vez menos virado para s minudências da cultura. Não raro, faltava espaço para ser publicado. Outras vezes as peças perdiam-se nos cacifos da Redacção. De nada lhe valiam os queixumes. A própria página de cultura era agora meia página. Chegou a integrar uma comissão de colaboradores que, apoiando o editor, foi reclamar mais espaço junto da direcção, mas deu de caras com o poderoso corpo redactorial do Desporto, que exigia mais espaço para o torpe noticiário dos meniscos fracturados dos futebolistas. E este corpo, enfim, estava acossado pelo crescente peso da publicidade, que se estendia das páginas centrais para as laterais ameaçando evacuar o jornal de conteúdo jornalístico.
Apesar de minguada, a coluna deu-lhe um lugar de direito próprio na tertúlia. Os seus alvitres sobre textura e cor eram ousados na medida certa. Esburgou a subjectividade do Cosmos em longas conversas, com incursões ao mito e à filosofia. A ele se deve o termo excogito, aplicado ao artista enquanto privilegiado inquiridor do sentido da arte. Tal como é sua a afirmação «o imaginário do artista plástico é mais profundo do que o de qualquer outro artista». Não teria o escultor sido tocado pelo divino ao esculpir o Discóbolo? Não o teria eleito Deus – supremo editor de obras-primas – para impetrar no mármore a transcendência do humano? Não teria sido a sua oficiante mão incumbida de cortar a diamante a infinitésima face do espelho que reflecte a estrutura prismática do universo?
Sobre tudo divagou Álvaro com essas almas que o viam agora como um par, e a quem ele retribuía com encómios na coluna do jornal. Aos poucos, foi-se transformando num guia espiritual daquela imensa minoria, onde trabalhar o silêncio aquífero das formas levava à beatitude, às cercanias do sorriso da musa – se bem que às vezes por baixo dessa beatitude latejasse uma ferocidade narcísica demolidora. Os galeristas procuravam-no, os colecionadores auscultavam-no, os artistas em começo de carreira cortejavam-no. Uma dica sua era um prenúncio estimável do humor dos mercados de arte.
Um dia, num assomo criativo, rebentou tubos e tubos de tintas numa tela. Mostrou o resultado – que lhe parecia excelente – a Jessica e a outros pintores, mas a entoação de voz com que o apreciaram tinha a natural frieza dos ditosos, o que muito entristeceu Álvaro. Pensar que podia ser tomado por um devedor de cubistas e dadaístas, um abstracionista dotado da ubiquidade do teórico e do prático, mas viu-se remetido ao insulso púlpito do não criador para comentar o objecto do desejo, sem poder intervir no sorriso desse corpo desejável.

In «Contos Supranumerários», de Carlos Tê, Colecção «Cadernos do Campo Alegre» (n.º 1), Fundação Ciência e Desenvolvimento (Direcção editorial: Conselho Directivo do Teatro do Campo Alegre), Porto, Abril de 2001 (1.ª edição).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

[o literato português discute sempre zangado], excerto memorialista de Manuel Teixeira-Gomes

Foto encontrada em http://www.historiadeportugal.info/

Mas começaram os encontros com literatos, única espécie animal com que tenho mantido relações – e ainda bem! – na capital lusitana.
Cumprimentos; paragem, aproximação de camaradas desconhecidos, e logo uma discussão longa e assanhada… Por via de regra o literato português discute sempre zangado, e é profissionalmente irónico. Espreme as ironias com uns cascalhados risos, à mistura, que se coalham perfeitamente. E como o literato terrestre, é maledicente. Vinha à balha a vida dos colegas ausentes, num estendal de crónica libertina, esforçando-se cada qual por provar, no que respeita a si próprio, que é pessoa decente, confessada e comungada.
Esses encontros levaram, naturalmente, pela boca da noite, à visita aos cafés, onde estacionavam alguns musagetas de maior nomeada.
Apresentações, cumprimentos, perlengas…
«Mal iria a quem trova se lhe tomassem todos os versos por História» - diz o Castilho no seu ensaio sobre Anacreonte.
Nas feições, ou nas expressões, dos nossos escritores de agora, em prosa ou verso, pouco se lhes pode descobrir que seja reflexo verdadeiro de seus sentimentos reais, ou dos lances de suas verídicas vidas. Compõem-se e disfarçam muito.
Enquanto literatos da geração de Camilo levavam uma existência desregrada, apregoando ao mesmo tempo os sãos princípios da moral cristã, os da presente geração – a de 1880 – pregando máximas subversivas de toda a organização social, praticam vida de exemplares pais de famílias, e disciplinam-se muito voluntariamente, nas fileiras da burocracia.
Mas tais contrastes sempre se deram em gerações subsequentes, e observam-se mesmo em tempos muito remotos, de anoitecida memória…
No cenáculo de que me aproximei, dera-se começo à habitual tarefa de insuflar espírito novo, e conveniente, aos diversos ramos da Arte; todos entrançaram, de improviso, um pensamento inédito na grinalda da renascença intelectual; e entre libações de aguardente de cana, ali se decidiu categoricamente do futuro das letras pátrias e… universais.
Um dos musagetas, cujo nome eu reputava respeitável, mas que não recebera dos meus companheiros atenção suficiente, separou-se do grupo, e foi tomar assento numa banca próxima, de onde nos ficou olhando entre arrogante e desdenhoso.
Inquiri, ingenuamente, da sua capacidade artística e intelectual, e logo outro musageta sentenciou: «Pretenso filósofo: é um espírito de pouquíssima superfície e profundidade nula…»
Sentia-me fatigado e sonolento. Sobre o conceito, a que aplaudi, fiz as minhas despedidas, já resolvido a evitar novos encontros literários, e adiando a leccionação prática, destinada ao velho poeta, decidi ir espairecer ao dia seguinte para Sintra.

In «Regressos», de Manuel Teixeira-Gomes (com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues; e notas de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu e Vítor Wladimiro Ferreira), colecção «Obras Completas de M. Teixeira-Gomes», Bertrand Editora, Venda Nova, Dezembro de 1991 (4.ª edição – patrocinada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

«À LAREIRA», texto de José Gomes Ferreira

Imagem encontrada em http://eutambemtenhoumblog11.blogspot.pt/

Estou a escrever, sentado à lareira de Novembro na minha casa de fins-de-semana, construída num antigo pedregal de cardos e carrasqueiras onde, à custa do suor físico dos outros, sempre tão avidamente explorado pelos meus êxtases humanísticos, plantei algumas dezenas de cedros e pinheiros – estes agora cortados à socapa, para veniagas ou festarolas de peru, por irresponsáveis que nunca conseguiram olhar religiosamente para uma árvore. Rito que, devo confessar, só aprendi aí pelos anos 30, quando conheci um velho fidalgo que, certa tarde, para me provar a simpatia que sentia por mim, me convidou a acompanhá-lo a um parque que, no século XIX, pertencera ao palácio onde nascera e agora estava transformado numa feira de barracas de divertimentos populares.
– Venha daí comigo. Quero mostra-lhe uma coisa.
Segui-o até ao portal do Parque de Diversões, obrigou-me a entrar e, em dado momento, vi-o estacar diante de uma árvore densa de verde perfeito.
– Fui eu que a plantei em criança – disse-me, desvanecido, como se contemplasse o autêntico brasão da sua casa (era um jardineiro amador que cultivava rosas em segredo num jardim clandestino de paixões secretas onde, quando cheirava as flores, sentia bocas de mulheres a desfazerem-se em manhãs húmidas). – Tem mais de setenta anos – comentou ainda.
Não respondi, comovido com aquele amor de um homem por uma mulher vegetal que parecia entendê-lo, feliz, e bem diferente dos cepos de um muro próximo com dois ou três ramos secos, à espera de enforcados, ou das árvores de Raul Brandão que trepam pelas paredes dos hospitais para se alimentarem de dor, gritos e esgares doridos.
– É uma maravilha! – murmurava de vez em quando o meu companheiro amolecido pela frescura da árvore magnífica. O que, aliás, abria o apetite ao maldito diabinho torpe que nunca me larga, para me incitar a pregar-lhe um pontapé valente no tronco. – E pensar eu – continuava o fidalgo, agora indignado – que a maioria dos homens passa indiferente diante das árvores como se fossem meros objectos de plástico, fabricados às séries para enfeitar as avenidas. E não seres vivos, tão extraordinários que nem sequer sujam. Já reparou, não é verdade? Não estercam como todos os outros seres viventes deste mundo a que nunca faltam tripas e entranhas porcas. Os dejectos das plantas são as flores secas. As folhas que douram os caminhos do Outono… As pétalas em que a morte ainda é perfume nas rosas desfolhadas…
Assim falava o meu velho amador de ervas e jardins (ou estarei eu a inventar estas reflexões?) diante daquela árvore sagrada que ia mostrar sempre, em cerimonial de rito, aos amigos que admitia no seu templo. E eu concordava, enternecido.
Concordava, claro, embora com a comédia cínica do costume. Porque, neste mesmo instante, não hesito em lançar na lareira uma acha de árvore que vi abater, indiferente, não faz um ano. E ei-la ali agora desfeita, a dar as últimas flores e folhas em forma de chamas. Folhas, flores e frutos que me aquecem as mãos e, sobretudo, os pés – porque nesta posição de pernas alongadas, convenço-me mais facilmente de que estou a pensar. Não penso em nada, está bem de ver. Finjo apenas neste entremeio entre a fadiga e o sono que tanto se assemelha exteriormente à meditação de problemas profundos.
Em boa verdade, reparo pela primeira vez com olhos atentos nas raízes que ardem. Principalmente na maior, com cabeça de dragão a golfar labaredas da boca, dos olhos, das orelhas. Um autêntico monstro que o entreouvir do ranger do vento no cedral torna mais sinistro.
Então, semiadormecido, escalda-me o pavor de que o esfervelho daquele bicho, que parece filho da tarântula e caranguejo, o convença a saltar-me ao pescoço para me sugar os gorgomilos.
Ao lado, outra raiz, movida pelo lume, parece uma aranha de patas molengonas, disposta a sustentar um combate singular com um monstro de lança em riste, criado por um satanás louco qualquer.
Sempre considerei as raízes misteriosas – principalmente, quando nestas horas de fadiga nocturna, lanço uma olhadela para as que juntei num cesto de Miranda do Corvo onde se amontoa a lenha.
Sim deixem-me empregar a palavra «mistério» que me parece a única possível para, embora não explicando coisa alguma, amortecer o meu pasmo de saber que ali, naqueles invólucros negros, se concentraram durante anos e anos de Primaveras e Outonos o verde e o ouro das folhas, as cores várias das flores, o veludo da pele dos frutos.
Meio sonolento tiro do cesto um polvo terroso e deponho-o com terror disfarçado (é preciso que a família não perceba) naquele inferno miniatural que afinal – ai de mim! – nestas noites de Novembro (neste maldito Novembro do Termidor) me aquecem mais do que o céu. Pouco a pouco os olhos cerram-se-me com o calor. Mas reajo. Não, não quero dormir. Abro-os com denodo, a ouvir magoado o crepitar das raízes-bichos… Estamos no fim da Revolução… E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.
Mas o sono não desiste… E no negrume dos tijolos refractários da chaminé em frente, vejo desenhar-se de súbito, com o giz de me sentir adormecer, uma raiz quadrada, uma horrenda raiz quadrada que em criança, na escola, nunca consegui resolver. Nem agora, na velhice. Nem nunca!
Adormeço lentamente – com o coração sempre acordado, desejoso do futuro acordado para toda a gente que, medrosamente, já ninguém espera. Ninguém…
Entrámos na era dos pequenos sonhos medíocres para gente de imaginação pobre.

In «Revolução Necessária / Intervenção Sonâmbula», colectânea de crónicas de José Gomes Ferreira, Obras de José Gomes Ferreira, Círculo de Leitores (licença editorial por cortesia de Publicações Dom Quixote), Lisboa, Setembro de 2004.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS e um VERTIGINOSO, ESTONTEANTE, INESQUECÍVEL 2017...

A todos os nossos leitores, autores, ilustradores, paginadores, colaboradores das artes gráficas, livreiros e amigos, desejamos que se sintam felizes e capazes de retemperar forças para um novo ano.
É sempre actual a canção/poema de Ary dos Santos:

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

«poemas ocasionais», de Fernando Miguel Bernardes

(Nota introdutória)

VOZ A ECOAR PELAS QUEBRADAS…

       Dizem-se «ocasionais». De ocasião. Como suspiro d’alma que se dá, de quando em vez, perante o inusitado, ao ler uma frase sentida, ou, mesmo, diante do rumo ziguezagueante de uma Humanidade ora, cada vez mais, a desmerecer inicial maiúscula.
          Voz a ecoar pelas quebradas. Um rio. Já o imperador romano Marco Aurélio escrevia ser a vida qual rio torrentoso: mal acabas de ver a folhinha flutuante, ei-la que já lá vai e, em seu lugar, outra vem, em jeito de abalada.
          E importava parar.
          No parque duma cidade ergueram monumento ao ancião: um banco igual ao banco onde ele passava as tardes a ver as águas gorgolejar, a ouvir as aves trinarem ao desafio: «O octogenário / sentou-se / num tronco / a meditar» (p. 75).
          Para aí voou meu pensamento, ao saborear estes poemas ocasionais.
          Para um rio:
                    lavou avós lavou netos
                    regou no campo o esparteiro
                    rendilhou de verde os fetos
                    da cerca do fazendeiro   (p. 24).

          Para a Natureza:
                    na várzea dos olmos
                    os estorninhos
                    mostram-se esquivos:
                    sobem aos fios

                    e pousam
                    espreitam
                    em redor
                    receiam desafios (p. 74).

          Para a humanidade sem inicial maiúscula. A meter bem fundo o dedo na ferida, para que sangre deveras:
                    de armas na mão
                    e drones no ar
                    sem tripulação
                    e sabem matar

                    corpo-computador
                    frio e desumano…
                    quem o manipula
                    diz-se um ser humano (p. 72).
          
          Por isso, há
                     montes maninhos
                     verduras
                     transgénicas

                     frutas maduras
                     de intervenções
                     polémicas  (p. 65).

      Por aí vamos, embalados ao ritmo do soneto ou de rimas mais libertas, envoltas sempre, porém, numa suavidade que encanta.
         Fazemos nosso o libelo contra os parasitas:
       «Vérmina – disse o doutor, ao ser pelo doente consultado; vermes – disse o eleitor, ao ser, pelos que elegeu, parasitado» (p. 90).
          Lamentamo-nos, evocando o Coriolano de Shakespeare:
        «Eleito a falsas promessas, este no comando agora – ai, ai, Coriolano!... – eis, por fim, tudo às avessas, os cidadãos ao engano!» (p. 81).
       Sentamo-nos ao relento com o sem-abrigo, a ver a Lua: «Tu tens uma cama quente», diz ele, «e a mim o que me ajuda é um travo de aguardente!» (p. 14).
        Sonhamos ser o «construtor da habitação por vir, sem cerca ou alão de prevenir», porque «de todos tudo é e abundante será!» (p. 66); e sorriremos, confiantes de que, um dia, o «clarão aberto» vai mesmo deflagrar (p. 70), qual sereno desabrochar de «rosa rubra na lapela sobre o peito» (p. 92). Cumprir-se-á, assim, uma «última vontade», porque, entretanto, «da tundra ao Tibete», tu «disseste ao meu ouvido: ‘Amo-te!’» «e, do deserto, a cheiro a menta se evolou aos cumes mais elevados»… (p. 79).
          É assim a poesia de Fernando Miguel Bernardes – na perspicaz atenção crítica ao que o rodeia. E as suas palavras são sibilantes flechas certeiras; o objectivo: pôr de novo inicial maiúscula na palavra Humanidade, ao lado de uma outra, que com ela deve rimar também: a Liberdade!

José d’ Encarnação
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AUTOR:
Fernando Miguel Bernardes nasceu em Gândara dos Olivais, Leiria. Estudou nas Universidades de Coimbra e Clássica de Lisboa, onde se licenciou.
Como engenheiro geógrafo, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo nessa qualidade feito uma pós-graduação em Cálculo Científico.
Docente de Informática no ensino superior particular, exerceu também funções de técnico superior de Sistemas Informáticos numa empresa de construção naval.
Foi ainda director de departamento de uma câmara municipal da Área Metropolitana de Lisboa.
Poemas de que é autor foram musicados e cantados, ou declamados, alguns com gravação em disco  ou DVD (Digital Versatile Disc), por artistas como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Manuel Freire, Daniel, José Jorge Letria, Samuel e José Carlos Ary dos Santos. 
Antes da Revolução de Abril, devido à sua ideologia e posições tomadas como resistente ao regime, foi várias vezes detido, julgado e condenado nos chamados Tribunais Plenários, tendo cumprido as sucessivas penas em prisões políticas de Coimbra, Porto, Lisboa e Caxias. Mais tarde, foi-lhe reconhecido, pela Assembleia da República, o «mérito excepcional da contribuição dada à defesa da Liberdade e da Democracia».
No seguimento da publicação dos seus livros para a infância e juventude, vem visitando escolas do ensino básico por todo o País, para, com as crianças, os pais e os professores, ler e comentar e dramatizar alguns dos seus textos, previamente explorados nas respectivas turmas.
Co-fundador da Organização dos Trabalhadores Científicos, é sócio activo de instituições científicas e culturais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, na qual foi inserido como vogal da Secção de Geografia Matemática e Cartografia, ou como a Associação Portuguesa de Escritores, sendo nesta membro efectivo da Direcção.
Integra e coordena habitualmente júris de prémios literários de âmbito nacional e internacional.