quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Excerto do conto «O sorriso perturbador», de Carlos Tê

Foto encontrada em http://centenario.up.pt

Convenceu o editor a devolver-lhe a coluna, desta vez para escrever sobre artes plásticas. Teve de abdicar da avença ridícula que lhe pagavam pela colaboração. Reflectindo o mundo, o jornal estava cada vez menos virado para s minudências da cultura. Não raro, faltava espaço para ser publicado. Outras vezes as peças perdiam-se nos cacifos da Redacção. De nada lhe valiam os queixumes. A própria página de cultura era agora meia página. Chegou a integrar uma comissão de colaboradores que, apoiando o editor, foi reclamar mais espaço junto da direcção, mas deu de caras com o poderoso corpo redactorial do Desporto, que exigia mais espaço para o torpe noticiário dos meniscos fracturados dos futebolistas. E este corpo, enfim, estava acossado pelo crescente peso da publicidade, que se estendia das páginas centrais para as laterais ameaçando evacuar o jornal de conteúdo jornalístico.
Apesar de minguada, a coluna deu-lhe um lugar de direito próprio na tertúlia. Os seus alvitres sobre textura e cor eram ousados na medida certa. Esburgou a subjectividade do Cosmos em longas conversas, com incursões ao mito e à filosofia. A ele se deve o termo excogito, aplicado ao artista enquanto privilegiado inquiridor do sentido da arte. Tal como é sua a afirmação «o imaginário do artista plástico é mais profundo do que o de qualquer outro artista». Não teria o escultor sido tocado pelo divino ao esculpir o Discóbolo? Não o teria eleito Deus – supremo editor de obras-primas – para impetrar no mármore a transcendência do humano? Não teria sido a sua oficiante mão incumbida de cortar a diamante a infinitésima face do espelho que reflecte a estrutura prismática do universo?
Sobre tudo divagou Álvaro com essas almas que o viam agora como um par, e a quem ele retribuía com encómios na coluna do jornal. Aos poucos, foi-se transformando num guia espiritual daquela imensa minoria, onde trabalhar o silêncio aquífero das formas levava à beatitude, às cercanias do sorriso da musa – se bem que às vezes por baixo dessa beatitude latejasse uma ferocidade narcísica demolidora. Os galeristas procuravam-no, os colecionadores auscultavam-no, os artistas em começo de carreira cortejavam-no. Uma dica sua era um prenúncio estimável do humor dos mercados de arte.
Um dia, num assomo criativo, rebentou tubos e tubos de tintas numa tela. Mostrou o resultado – que lhe parecia excelente – a Jessica e a outros pintores, mas a entoação de voz com que o apreciaram tinha a natural frieza dos ditosos, o que muito entristeceu Álvaro. Pensar que podia ser tomado por um devedor de cubistas e dadaístas, um abstracionista dotado da ubiquidade do teórico e do prático, mas viu-se remetido ao insulso púlpito do não criador para comentar o objecto do desejo, sem poder intervir no sorriso desse corpo desejável.

In «Contos Supranumerários», de Carlos Tê, Colecção «Cadernos do Campo Alegre» (n.º 1), Fundação Ciência e Desenvolvimento (Direcção editorial: Conselho Directivo do Teatro do Campo Alegre), Porto, Abril de 2001 (1.ª edição).

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