segunda-feira, 30 de março de 2015

VÍCIOS ETERNOS, crónica de Mário Cláudio

Augusto de Castro em 1968 
(Foto do Arquivo Municipal de Lisboa)
Numa fase em que reentrou em moda a anotação das características do cidadão português, e em que a mais saliente delas se afigura a de ser isso mesmo, português e vivo, e daí diminutivo, como no célebre poema de Carlos Queirós, valerá talvez a pena reparar numa voz longínqua. Aquele de quem falo, tendo soçobrado em quase todos os géneros literários a que se dedicou, foi excelente cronista, redigindo em forma correcta, mas sem demasiadas cautelas, e proporcionando com frequência uma panorâmica do país que muitos se têm limitado a revisitar. Não fora a operação de purga que compreensivelmente o vitimizou, semelhante à que atingiu outros que só agora reemergem, tê-lo-íamos ainda no nosso convívio, e com direito pelo menos a possuir uma rua com o seu onomástico.
Augusto de Castro nasceu no Porto em 1883, foi amigo dilecto de António Nobre, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, e transitou das hostes da Primeira República às fileiras do Estado Novo, regime que defenderia despudoradamente até ao fim dos seus dias. Era daqueles que nos livros que iam publicando colocavam, bem à vista, e por debaixo do nome, a qualidade de «Sócio Efectivo da Academia das Ciências», costume que alguns se lamentarão de haver caído em desuso. Mas como director do Diário de Notícias, lugar em que parecia haver mumificado ao longo das décadas, é que iria tornar-se conhecido. Os seus «artigos de fundo», em geral de índole apologética, faziam dele um dos notórios sustentáculos do salazarismo, e um dos alvos favoritos do asco da oposição. Talvez por isso dificilmente se encontram referências à sua pessoa nos vários dicionários de literatura portuguesa, ou nas mais correntes histórias dela.
O que nos prende aqui são dois textos, «Virtudes Domésticas» e «O Monstro de Olhos Verdes», ambos incluídos no volume intitulado Homens e Paisagens que Eu Conheci, vindo à luz em 1941, nos quais se apontam de modo sibilino, e sem a menor pretensão filosofante, as misérias que acompanham a grandeza que nos cabe. Começa o nosso homem por aludir àquilo que denomina «o mal de casa», «caracterizando-se, de um lado, pela estreiteza de ambições colectivas, do outro lado, por uma espécie de desconfiança endémica e de dispersão da iniciativa». Menciona então «cinquenta anos de exagero crítico», «um século de infiltração da frase “pequeno povo”», «um certo lirismo da modéstia», e duzentos anos do estribilho «somos um país pobre».
Tendo sublinhado que «o grande desporto nacional é o pim-pam-pum da calúnia e da intriga com que reciprocamente nos mimoseamos», Augusto de Castro prossegue na caçada ao «velho monstro de olhos cor de limo, sempre pronto a atacar e sempre pronto a escapar-se, que se chama a Inveja». Aquilo que nos conta, e que se cobre quase sempre de uma trágica película de «dejá vu», bastaria só por si para justificar o aconselhamento do divã do psicanalista, se a receita estivesse hoje tão em voga como no tempo do signatário dessas crónicas. Escreve ele, «O pensamento, entre nós, em regra, tem bílis.» E explica, «Daí o nosso pouco jeito para a sociabilidade, o abuso dos sentimentos depressivos, um mau humor latente que vai desde a rua até ao livro.» E remata com estas três sentenças, cada uma das quais merecedora, por si só, de um compêndio de reflexão, «Portugal sofre de falta de simpatia colectiva. Elogiamo-nos ou atacamo-nos. Raramente nos conhecemos.»
Não ignora que na base deste discurso se situa quanto baste de proselitismo do ideário então vigente, e em doses não despiciendas aquele optimismo quase histérico de propósitos, animador de inteligências que se propunham reproduzir a genialidade de Marinetti, ou o colorismo de António Ferro. Mas a verdade é que o objectivo da análise não lhe rouba o evidente rigor, e o elogio do remédio não retira a gravidade da doença.
Entronizado no seu circunspecto gabinete do Diário de Notícias, feliz por se deparar nas novas instalações da Avenida da Liberdade, metido num «fato à moda, de corte inglês», e com «uma gardénia no casaco», Augusto de Castro observa, e descreve o que somos. E o que somos não abdica das borras de uma mentalidade que regime nenhum, bom ou mau, ou mesmo assim-assim, se mostrou capaz de despejar sem sequer dizer «água vai!»

In «O eixo da bússola»» (crónicas), de Mário Cláudio, Verbo (chancela Babel), Lisboa, 2010.

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