segunda-feira, 2 de setembro de 2013

MIGUEL TORGA E EU, poema de Manuel Alegre

Foto retirada de http://purl.pt
Fui ao seu consultório muitas vezes.
Tratou-me da garganta e do nariz.
Limpou-me as ventas. Mas sobretudo
abriu-me as válvulas de dentro
para que o vento da pergunta circulasse
varrendo teias medos presunções.
Também de versos me falou: «O primeiro é dado
os outros tens de conquistá-los.»

E quando do país desesperava
confessando-lhe desisto
ele dava-me a receita e a divisa
«ser contra isto para ser por isto

E sempre em sua casa me regalou
com seu Porto e seu tinto Barca Velha
às vezes galinholas e narcejas.
«Fui caçá-las para ti» – dizia.

Por isso lhe estou grato. Por me tratar
das ventas e dos versos.
Por repartir comigo o pão o vinho e a palavra.
Por sua fidalguia. E sobretudo
por sua lição de vida e poesia.

In «Coimbra nunca vista» (poesia), de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1995 (1.ª edição).

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