domingo, 8 de setembro de 2013

[Desgraçadamente, cada vez sentia a caneta mais perra], disse Miguel Torga

Miguel Torga – Foto retirada de www.asbeiras.pt
Desgraçadamente, cada vez sentia a caneta mais perra. Sabia de há muito, desde que assumira dramaticamente o acto acordado de existir, que nunca o melhor do meu esforço beneficiaria do usufruto dos hábitos. Diante de cada trabalho, por mais difícil e repetido que fosse, ficava atarantado como um principiante a ensaiar, na confusão e na dúvida, os primeiros passos. A tropeçar constantemente na originalidade fundamental dos seres e das situações, a exigir para cada experiência uma voz inédita, sem poder deduzir por analogia qualquer padrão invariável de conduta, e incapaz de utilizar em benefício próprio os variados expedientes do êxito, só me restava a dignidade de ser lucidamente um eterno aprendiz. A recusa sistemática de concessões de qualquer natureza, a impugnação radical de todas as ortodoxias e a descrença latente nos meus eventuais méritos não me consentiam outra alternativa na gama apertada das minhas opções. Mas enquanto que, na profissão, a prática ia sancionando o seu exercício, de livro para livro as dificuldades redobravam. Ao cabo de alguns anos de tarimba literária, continuava canhestro, enrodilhado, hesitante, atado como nos primeiros tempos. Talvez mesmo pior ainda, já que agora nem o deslumbramento de neófito cegava a evidência. E tinha plena consciência de trazer um escritor tartamudo e aflito no avesso da pele aparente de um escritor fluente e convicto. O palco varrido da página branca, onde outros passeavam impantes a facilidade inspirada, simbolizava para mim um maninho e duro que tinha de arrotear e semear penosamente. E sorria por fora, rilhado de amargura por dentro, quando ouvia falar nas alegrias da criação, nos invejáveis contentamentos reservados ao artista. Publicava um volume, e leitores fiéis, a julgarem-se lisonjeiros, reclamavam outro no dia seguinte. De boa fé, atribuíam-me a destreza dum artesão prendado, com a perícia às ordens da vontade. Mal imaginavam que, depois de escrever aos arrancos um poema, um capítulo ou uma simples frase, ficava em pânico, crucificado pela incerteza de repetir a façanha. Nunca poderiam conceber que as tais horas altas de eufórica plenitude se reduziam a longas agonias, em que, às mil dificuldades oficinais, se vinha juntar o terror obsessivo de uma súbita mudez irreversível que selasse para sempre as portas do silêncio.
Nesse desencanto exacerbado, doía-me como uma familiaridade impertinente qualquer alusão menos discreta à minha actividade paralela de escritor. Bastava que um doente se lhe referisse no decorrer da consulta para que tudo ficasse transtornado. Já nem o diagnóstico saía em termos. Num pudor insofrido e quase hostil, por força das mais inesperadas agressões, queria ser respeitado nas razões profundas que me haviam levado a discriminar na própria identificação o acontecimento íntimo de ser poeta do acto público de ser médico. O nome exposto na tabuleta correspondia ao cidadão comprometido na honra do sangue, no grau das habilitações, nos deveres de urbanidade; o outro indeterminava o campo das minhas virtualidades, situava-me para além de todas as heranças e de todos os estatutos. Tornava, sobretudo, menos contingente uma vulnerabilidade tanto mais frágil quanto mais apetecidos eram os declives do abandono e maior a disponibilidade exigida pela construção dialéctica de uma obra que se desejava realizada na comunhão universal de todos os semelhantes.

In «A Criação do Mundo – IV» (O Quinto Dia da Criação do Mundo), prosa de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1974 (1.ª edição).

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