domingo, 8 de setembro de 2013

[Entre essas horas afanosas e precavidas do ofício e as fugas vadias] de Miguel Torga

Miguel Torga – Fotografia retirada de http://erhos.cadernovirtual.net
Entre essas horas afanosas e precavidas do ofício e as fugas vadias através de montes e vales, a dar largas ao pendor andarilho e à curiosidade impenitente, ficavam os surtos de tensão criadora, os mais difíceis de levar a cabo.
Para cada voz há um tempo e um lugar. Seguro de que também a minha cabia naquele espaço privilegiado pelo eco de tantas outras, ia lavrando o papel.
Não se tratava agora de elaborar um tratado de cortesania provinciana ou urdir uma demorada intriga devota. Os tempos eram outros e outra a coincidência social do escritor, cada vez mais empossado na sua responsabilidade ética pelo andamento do mundo. Embora na mesma língua, que ali conhecera nova graça e flexibilidade, e emoldurado na mesma paisagem que a inspirara – de quantas conhecia, a mais convidativa a devaneios estético-aristocráticos e enredos erótico-sentimentais, a ponto de sentir não sei que constrangimento ao lançar nela certas violências –, falava em nome de valores diferentes. Ainda encadeado pelo clarão revelador da viagem que me escancarava as portas de uma Europa convulsionada e me devolvera à pátria em carne viva, antevisão infernal do mundo apocalíptico de que os jornais davam diariamente notícia – a Espanha republicana vencida e exilada, os totalitarismos enfáticos e triunfantes por toda a parte, o velho continente ou esfarrapado já ou ameaçado de morte –, tentava traduzir o mais fielmente possível o abalo que sentira naqueles dias decisivos de ávida e dilacerante digressão. Seria um depoimento sincero e desassombrado, sem transigências de nenhuma ordem – políticas, religiosas, sentimentais ou outras. A intensidade da experiência não consentia meias medidas. Exigia que as feridas rasgadas no corpo inocente das nações ficassem a sangrar em cada página, ao lado dos regimes messiânicos denunciados e de todas as hipocrisias desmascaradas. E, ainda, que desse leal conta das minhas opções nos momentos cruciais, para que a chancela do risco autenticasse o relato. Muito embora fechado em si, de possível leitura autónoma, o livro constituiria apenas um novo e longo capítulo de uma obra mais vasta, concebida como o roteiro significativo de um caminhante inquieto e sensível, a criar lenta e progressivamente o mundo na consciência. Roteiro em que a imaginação ia alargando os horizontes peregrinos, nos volumes até ali publicados somente o penhor da inocência infantil e o arrebatamento juvenil davam corpo e sentido à narrativa. Pasmada e perplexa diante de agressões da realidade, a criança enchia o saco da memória de sensações e reflexos, sem suspeição para os discriminar e critério para os julgar. Por sua vez, o jovem, a mover-se já noutros paralelos geográficos e sociais – primeiro a esbracejar no seio quente de uma natureza tropical, depois a deambular nas alamedas do lirismo e do estudo, por último a dar os primeiros passos responsáveis – actuava também sem muito reflectir, escravo dos rigores da necessidade, do jogo das paixões e das leis do dever. E ambos chegavam ao termo das suas aventuras de testemunho passado e com trâmites da caminhada tatuados na alma, inequivocamente abismada de dor e teimosamente possessa de esperança.
Mas tudo mudara numa curva da estrada. Arrastado pela mão do tempo e levado pela curiosidade, quando deu por si, o herói transpusera as fronteiras do verosímil e, debruçado sobre um vulcão, observava ao vivo a maré ígnea e crescente das lavas fundidas nos abismos humanos. E era o espanto dessa visão sinistra que procurava agora pintar com a tinta acesa das palavras.

In «A Criação do Mundo – IV» (O Quinto Dia da Criação do Mundo), prosa de Miguel Torga, edição de autor, Coimbra, Abril de 1974 (1.ª edição).

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