sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"A FELICIDADE É UM DEVER", excerto de um livro do húngaro Imre Kertész

Imre Kertész - Prémio Nobel da Literatura 2002 
(fotografia retirada de http://literalab.com)
(…) Vive como se cada um dos teus passos fosse abençoado. Também podes viver como um maldito. Mas, então, serás maldito. Por outro lado, aconteça o que acontecer, o facto de teres podido viver e trabalhar foi, de qualquer modo, uma bênção; e foi uma bênção, porque, no teu passado maldito, também foste capaz de te aperceber das grandes oportunidades da vida.
Se é verdade, como diz Camus, que a felicidade é um dever, então, esta verdade só fará inteiro sentido se concluirmos de modo claro em relação a quem é um dever: nós mesmos, os nossos companheiros, Deus, por hipótese?
Fica por definir a qualidade da felicidade. Se a tua ocupação – não, deixemo-nos de subentendidos –, se a paixão da tua vida te leva a definir a condição humana, deves abrir o coração à miséria total que reside neste estado; mas não podes ficar indiferente ao movimento do teu lápis, à alegria da chamada criação. És um mentiroso, então? Naturalmente; mas em qualquer grande aventura, aqui, vigora a ordem: deves oferecer-te a ti mesmo, para que comam a tua carne, bebam o teu sangue… O pior dos fins é uma espécie de desarranjo banal, ordinário: ele tudo desmente. Não sair das luzes da festa – oh, o horror do aborrecimento: o aborrecimento é um crime.
Se a tua existência não é inacreditável, então, não vale a pena falar dela. (…)

In «Um outro – Crónica de uma metamorfose», de Imre Kertész (com tradução do húngaro de Ernesto Rodrigues), colecção «Grandes Narrativas» (n.º 434), Editorial Presença, Lisboa, Junho de 2009 (1.ª edição).

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